(Arquivo/Agência Brasil) O Ranking do Saneamento 2026, divulgado ontem pelo Instituto Trata Brasil com dados de 2024, traz um retrato bem conhecido da desigualdade brasileira no acesso a um direito básico: água tratada e esgoto coletado e tratado. O levantamento, que analisa os 100 municípios mais populosos do País com base em dados oficiais informados pelas próprias prefeituras e restritos às áreas regularizadas, escancara dois Brasis que convivem lado a lado. De um lado, cidades que mostram que a universalização é possível. Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos lideram o ranking com pontuação máxima. Não por acaso, são municípios cujas empresas que respondem por esses serviços combinam planejamento, gestão eficiente e, sobretudo, investimento contínuo. A presença de Santos entre os melhores reforça que a Baixada Santista tem exemplos concretos de que é possível avançar quando há prioridade política e técnica. E aqui vale o grifo novamente: são computadas apenas as áreas regularizadas, ficando de fora moradias em palafitas, por exemplo. Praia Grande também é destaque por ser a cidade que mais investe per capita: R\$ 572,87. Do outro lado, municípios que seguem muito distantes do básico. Santarém, Porto Velho, Rio Branco, Várzea Grande e Parauapebas ocupam as últimas posições com índices alarmantes. A diferença entre os 20 melhores e os 20 piores chega a mais de 70 pontos percentuais na coleta de esgoto, um abismo que traduz desigualdade, exclusão e abandono. O dado mais preocupante, no entanto, é financeiro. Mais da metade das cidades investe menos de R\$ 100 por habitante em saneamento, quando o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) estima a necessidade de R\$ 225 por habitante para universalizar os serviços até 2033, conforme determina o Marco Legal do Saneamento. Nos municípios com pior desempenho, o investimento médio é de apenas R\$ 77,58, insuficiente e incompatível com qualquer meta séria. A relação é direta e inequívoca: onde se investe mais, os indicadores avançam. Onde falta investimento, falta água, sobra esgoto e se multiplicam doenças, internações e perdas econômicas. Não há mistério nessa relação. É preciso dizer com todas as letras: investir em saneamento é investir em saúde. Cada real aplicado em água e esgoto reduz gastos hospitalares, melhora a produtividade, valoriza imóveis e impulsiona o desenvolvimento. Ignorar isso é perpetuar um ciclo de desigualdade que penaliza justamente os mais vulneráveis. O Brasil já definiu seu caminho com o Marco Legal do Saneamento. A meta de universalização até 2033 não é uma opção, é um compromisso. Mas ela só será cumprida se os municípios, estados e a União alinharem prioridades e, principalmente, ampliarem de forma significativa os investimentos per capita, sobretudo nas cidades que ainda estão muito atrás.