(Lula Marques/Agência Brasil) Mesmo com o Interior tomado pela fumaça, o fogo destruindo biomas e a seca avançando pela região amazônica, o Congresso segue preocupado com outros temas prioritários, ignorando a emergência ambiental. Sucessão do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), anistia aos golpistas do 8 de Janeiro, confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF) e eleições dominam as atenções do Legislativo. O Executivo também falha sob esse aspecto. Promessa da campanha eleitoral de 2022, apenas agora o governo passou a pensar em criar a Autoridade Climática, uma sugestão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, O ideal seria uma função parecida às dos integrantes das salas de crise montadas às pressas quando fenômenos da natureza castigam a população. Haveria um poder de mando acima dos outros organismos governamentais para acelerar as decisões, utilizar recursos e arregimentar estrutura e servidores públicos. Entretanto, as atribuições do novo órgão ainda serão anunciadas. Por outro lado, falta implantar uma política padronizada para combater catástrofes, como enchentes, falta de chuvas e queimadas. Durante as chuvas de maio no Rio Grande do Sul, o próprio presidente Lula mencionou a intenção de desenvolver um plano institucional, pronto para funcionar nessas ocasiões, sem necessidade de aprovar leis e recursos extras no afogadilho. Quase quatro meses depois do drama gaúcho, esse tema simplesmente sumiu do discurso, pelo menos dos políticos do primeiro time do Executivo e Legislativo. Aliás, cientistas de diferentes formações alertaram no primeiro semestre que esta segunda metade do ano deveria vivenciar a transição do El Niño para o La Niña, com seca no Sul, muita chuva no Nordeste e clima intermediário (seco ou chuvoso) no restante do País. Agora, a impressão que se tem é que as autoridades foram surpreendidas pela seca, que veio numa intensidade extrema. Os pesquisadores avisam exaustivamente que as mudanças climáticas são caracterizadas pela manifestação no nível máximo. Com a fumaça e o fogo que há semanas vão e voltam, saiu-se, em tom de novidade, à caça de criminosos que aproveitam a estiagem para destruir os biomas. Além disso, persistem hábitos inaceitáveis, como atear fogo em restos de vegetação ou lixo para limpar terrenos, o que pode dizimar as matas próximas, inclusive atingindo bairros que avançaram sobre o entorno verde das metrópoles e cidades médias. Fiscalização e educação ambiental são remédios para isso, mas o que se pratica hoje para esses fins não tem sido o suficiente. As tragédias ambientais infelizmente se tornaram mais agressivas. Portanto, não tem sentido os gestores públicos reagirem sempre com surpresa e depois anunciarem medidas de impacto, que na verdade apenas atenuam efeitos catastróficos. É preciso trabalhar com assertividade, de forma preventiva, aplicando o que se prometeu nos discursos e nas campanhas eleitorais.