Para o brasileiro comum, o problema é que a desvalorização acelerada do real poderá pesar nos combustíveis (Reprodução/Pixabay) O fluxo cambial negativo de US\$ 15 bilhões em 2024, a fuga de estrangeiros da Bolsa no mesmo ano e os leilões do Banco Central para acalmar o mercado, de US\$ 21 bilhões em dezembro, preocupam não tanto pelas cifras, mas pelo potencial de estrago que a resistência do Governo Lula de cortar gastos ainda poderá causar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Quem viveu entre os anos 1970 e 1990 deve estar preocupado, pois as crises motivadas pelo dólar eram constantes. Entretanto, comparando-se esses períodos com o atual, a conclusão é que a situação agora não é tão grave como antes, pois o Brasil em várias ocasiões quase caiu no precipício. Porém, há o temor de que a desvalorização do real tenha um efeito desastroso sobre os preços, gerando muita inflação, que já está em ascensão pelo consumo muito forte no ano passado. Se esses aumentos se disseminarem, o Banco Central será obrigado a manter os juros elevados por mais tempo, anulando a retomada de 2024. Nas últimas semanas do ano passado, o Banco Central recorreu às reservas internacionais para injetar dólares no mercado. Essas operações não têm intenção de reduzir a cotação do dólar, mas de suprir a alta da demanda. A disparada da moeda faz com que os que precisam comprá-la, como importadores, multinacionais que enviam lucros às sedes e tomadores de empréstimos externos, antecipem suas operações para evitar um câmbio mais caro ainda. No sentido inverso, exportadores adiam a conversão de suas receitas para reais na expectativa de que o preço da moeda suba mais ainda. Para o brasileiro comum, o problema é que a desvalorização acelerada do real poderá pesar nos combustíveis, um segmento que reflete em toda a economia, pois o transporte rodoviário é o modal dominante no País. Por sorte, o petróleo tem permanecido estável no mercado mundial, o que é um assombro, pois a tensão no Oriente Médio dura meses. A resposta para isso está no baixo crescimento dos países ricos e da China, com exceção dos Estados Unidos, que vão muito bem. Por isso, a preocupação com o represamento de preços pela Petrobras tem sido ignorada pelo mercado. O Brasil mudou em relação aos anos 1970 e 1980 e a falta de dólares da época de vez a saldos comerciais altíssimos, de US\$ 98 bilhões em 2023 e quase US\$ 70 bilhões em 2024. Além disso, os saques recentes feitos pelo BC sobre as reservas internacionais reduziram essa conta em apenas 5%, ficando em US\$ 332 bilhões. Portanto, o problema do momento, a subida do dólar, não tem relação com o que se via no País décadas atrás, com déficits causados pela necessidade de importar quase que totalmente o petróleo, o que não ocorre mais hoje. O centro da crise está nos gastos públicos, aliás, no aumento acelerado dessas despesas, com foco na Previdência Social. Nas duas últimas décadas, o Brasil resolveu seu drama da falta de dólares e da hiperinflação, mas não conseguiu aprumar as contas públicas.