(Divulgação) Nova edição do Atlas da Violência, produzido anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que menos de 3% das cidades concentram metade dos 46,4 mil homicídios registrados no Brasil em 2022. O documento aponta que apenas 162 municípios brasileiros somam metade dos assassinatos ocorridos no Brasil naquele ano. Quando se leva em conta as taxas de homicídio, destacam-se as cidades localizadas no interior da Bahia, estado que figura com sete das 10 mais violentas no ranking do Ipea. A nova edição do relatório foi divulgada ontem. Entre os municípios listados, 24 estão situados na Bahia, 19 no Rio de Janeiro e 16 em São Paulo. A única capital que não figura na lista é Florianópolis. Outro fato destacado pelos organizadores do estudo é que 2022 foi o ano com maior número de municípios com pelo menos um homicídio estimado (4.022), o que pode indicar uma tendência de desconcentração do crime nos últimos quatro anos, ainda que bastante modesta. A explicação, segundo o documento, está na interiorização do crime organizado, especialmente ligado ao tráfico de drogas. Hoje, as facções se espalharam também pelas regiões Norte e Centro-Oeste, o que não ocorria até anos atrás. Embora as duas facções mais conhecidas no País sejam o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, a inteligência das políticas já identificou a existência de mais de 70 outros grupos criminosos, que se aliam em determinados momentos para ampliar suas bases e enfrentar a polícia. O fenômeno ocorreu, por exemplo, em Salvador, onde o Bonde do Maluco se aliou ao PCC para distribuir e exportar drogas a partir do porto baiano. Os dados do Ipea, sempre aguardados porque revelam tendências ao consolidar estatísticas de segurança de todo o País, indicam que uma política mais agressiva e focada deve partir do Governo Federal, já que envolve a ação de grupos organizados em territórios interestaduais. Até anos atrás, a concentração desses criminosos se dava nas grandes capitais. Embora ainda estejam presentes nessas metrópoles, o estudo evidencia uma nova estratégia de atuação, provavelmente em busca de novos mercados, facilidades de fuga e atuação proporcionadas pelos vazios de ação de governos estaduais e municípios e, principalmente, porque o aliciamento e recrutamento de jovens é mais fácil onde faltam educação, alimentação adequada e trabalho. Jovens vulneráveis são presas fáceis onde impera a falta de infraestrutura e políticas de inclusão. Dados como esses agora apresentados não devem servir apenas para figurar nas manchetes da imprensa quando revelados. Eles precisam ser ferramenta para orientar a destinação de verbas e estratégias adequadas no enfrentamento à violência. Diferente de décadas atrás, hoje nenhum governo pode alegar falta de informação ou desconhecimento sobre onde estão os criminosos.