[[legacy_image_290344]] Nas últimas duas semanas, o relacionamento entre o grupo do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se deteriorou rapidamente após o petista afirmar que a Casa não pode “humilhar” o Palácio do Planalto e o Senado e que tem poder “demais”, o que não deixa de ter algum sentido – diferente de tempos atrás, quando o Executivo dava as cartas praticamente sozinho. Haddad minimizou a declaração, que se tratou de deslize, mas desde então o andamento dos temas de interesse do governo ficou estagnado na Câmara, o que é péssimo para o atual momento do País. Neste mês, quando se imaginava que agosto destoaria da crença popular de ser um período propício a problemas (o mercado financeiro também se queixa de agosto), pois a taxa Selic caiu mais do que se esperava, o clima azedou. Os juros subiram nos EUA, a China expôs sinais de forte crise, a Bolsa bateu recorde de 13 dias seguidos de queda, a pauta econômica travou na Câmara e as investigações sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro centralizaram as atenções em Brasília. Entretanto, o principal entrave foi a demorada negociação do presidente Lula com o Centrão para ceder ministérios e ampliar a base. Em busca desesperada por recursos, o governo tenta aprovar o arcabouço fiscal, o substituto do teto de gastos, e um espaço de R\$ 30 bilhões no orçamento do próximo ano. São verbas que rapidamente irrigariam os programas sociais que já no próximo ano poderiam trazer votos. Porém, as críticas de Haddad à Câmara teriam durado 13 minutos em uma entrevista, um tempo contado pelo próprio Lira, segundo a GloboNews. Isso indicaria, portanto, que foi caso bem pensado e não falha, talvez uma alguma tática do Planalto nesta hora de minirreforma ministerial. Assim como Haddad não é unanimidade no PT e tem adversários petistas contra sua política econômica pragmática de controle do gasto público, Lira incomoda grupos, inclusive os que miram sua sucessão ou tentam ganhar espaço. De qualquer forma, o atual contexto ajuda a entender que a política, ao mesmo tempo em que destrava uma proposta há décadas desejada pelo País, a reforma tributária, por outro pode levar a perder um caminho propositivo de soluções. O sistema político brasileiro tem falhas graves, como partidos sem ideologia, formados por conveniência, e medidas postergadas por choque de interesses. Mas não deve se iludir com soluções fáceis ou aventuras. A situação atual reflete brigas regionais, como a de Lira com Renan Calheiros (MDB-AL), a polarização e uma séria crise fiscal, que vem desde o Governo Dilma Rousseff e se fundiu com a do auge da pandemia. Entretanto, é possível que este mês difícil se encerre com muitas de suas crises resolvidas, pelo menos na política, enquanto a incerteza na economia é mais forte lá fora do que no Brasil. Um motivo a mais para acreditar que o clima vai melhorar.