(Rodrigo Nardelli/TV Tribuna) Recentemente, participei da comitiva organizada pelo Grupo Tribuna para conhecer atividades industriais, de tecnologia e portuárias na Coreia do Sul. Vivenciei um país avançado em todos os sentidos, confirmando a admiração mundial sobre essa nação que conseguiu dar um salto fabuloso em seus índices de avaliações. Visitamos indústrias, como Samsung e LG, que têm inovação e alta tecnologia em seus DNAs, atuando nos mais variados segmentos, inclusive na Medicina. Adentramos na maior fábrica da Hyundai no mundo, que produz 6.500 veículos por dia, destinando 75% deles para o comércio exterior e disputando mundialmente participações em mercados altamente competitivos, sem deixar de lado os avanços tecnológicos, como os veículos híbridos movidos a hidrogênio, que captam CO2 da atmosfera. Circulamos no imenso estaleiro da Hyundai, que lança ao mar uma média de 65 navios por ano e tem uma expansão em implantação, para dobrar a capacidade de atendimento ao mercado mundial. Também conhecemos o sistema portuário da Coreia do Sul, que garante a presença e eficiência de portos públicos no modelo LandLord, convivendo com o porto privado, operado pela Hyundai, instalado ao lado de sua fábrica e compartilhando o pátio de veículos com as operações portuárias. Foram apresentados à comitiva terminais especializados de contêineres, inclusive um terminal portuário robotizado, mas mantendo também os portos multipropósitos, para carga geral. Participamos de bons diálogos com esclarecimentos sobre o modelo de trabalho portuário, que consegue conectar a automação com o trabalho braçal, assim como vimos na indústria automobilística. E todas essas convivências, aparentemente conflitantes, ocorrem sem legislações restritivas ou protecionistas, pois aquela é uma nação que defende liberdade, competição e negociação, sempre pensando nos interesses país. Um momento especial foi ouvir o dirigente do Porto de Busan afirmar que eles viveram todas as evoluções e mudanças no trabalho portuário sem greve alguma “nos últimos 145 anos”. Impressionante constatar que um país com território equivalente a Pernambuco e população próxima ao que temos em São Paulo consegue ter um PIB três vezes maior que o brasileiro, gerando renda per capita de cerca de US\$ 30 mil, enquanto o Brasil não chega a US\$ 10 mil. Com todo esse sucesso, como é possível titular esse artigo afirmando ser o Brasil é o sonho da Coreia? Para esclarecer essa aparente incorreção, busco o testemunho do professor Ernesto Lozardo, ex-presidente do Ipea, conforme consta em um de seus livros, que deveria ser lido por todos que imaginam um futuro melhor ao nosso Brasil. Em 2007, quando estudava as políticas de desenvolvimento da Coreia do Sul adotadas na década de 1970, Lozardo constatou que se elas se assemelhavam às concepções e formulações estratégicas do Programa de Ação Econômica do Governo (Paeg) e do Plano Decenal de Desenvolvimento Econômico e Social (PDDES), ambos elaborados pelo Ipea entre 1964 e 1967. Imaginando que o Brasil teria se inspirado nos planos da Coreia do Sul, o autor procurou Eliezer Batista, que vivenciou a implementação de tais programas brasileiros. Batista esclareceu que, na época de execução das reformas econômicas e institucionais, por meio do Paeg e PDDES, quando o Ipea estava sob liderança do economista Roberto Campos, no governo de Castello Branco, os técnicos do Banco Mundial e do FMI foram entusiastas dos programas dos brasileiros e diziam aos países subdesenvolvidos: ‘Olhem o Brasil. Lá estão sendo feitas as reformas certas de desenvolvimento’. Os sul-coreanos, que estavam atrás do Brasil em todas as avaliações, estiveram aqui em 1965 e 1967. Ao final desse período, foi oferecido a eles um jantar no Rio de Janeiro. Após os agradecimentos aos brasileiros, o chefe da comitiva encerrou seu discurso dizendo: ‘Esperamos ser um Brasil daqui a 30 anos’. Ou seja: foram os coreanos que copiaram os planos brasileiros e os aplicaram integralmente, objetivando alcançar o Brasil na década de 1990. Enquanto isso, nosso país jogou tais planos no lixo. Por isso, de forma justa, o professor Lozardo publicou o seu livro com o seguinte título: “Ok, Roberto, você venceu”. Se nosso país tivesse seguido o exemplo dos coreanos, mantendo aqueles planos nacionais de desenvolvimento, seríamos todos nós os vencedores. Assim, precisamos adequar o título desse texto para “O sonho da Coreia do Sul: era ser como o Brasil”. Precisamos visitar outros países para verificar as melhores práticas de sucesso, aplicando-as no Brasil. Assim, talvez algum dia, voltemos ser inspiração para outro país.