(FreePik) Um dia tem 24 horas, 5 cafezinhos, um par de chinelos, um beijo de língua ou um esbarrão na rua – a depender do dia. Com um pouco de juízo, nenhum cigarro. Vinte moscas no verão e uma única no inverno, que adoraria saber onde foram parar todas as outras. Uma crise de soluço e dois ônibus que passam pelo ponto sem parar, exasperando sete passageiros que esperavam por eles. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Há o dia bom que a gente sonha reviver, e aquele que só de pensar; num dia se apaixona e 350 depois se desapaixona. Um dia é feriado e tantos outros bem que podiam ser. De cinco em cinco dias há um minuto de silêncio pela perda de alguém que devia viver pelo menos mais dois mil deles. Tem aquele todo azul e outro em que as nuvens atravessam o céu (algumas cheias das ameaças). Há os que elas estão inspiradas: viram jacarés, tesouras, um coração; em outros, nem para tapar o sol estão dispostas. E tem as noites em que elas escondem as estrelas, ressentidas por não poderem ser vistas no céu escuro. Repare: os dias bons sempre envolvem uma mexerica. Ou uma marola. Toda manhã traz uma esperança, que desanima de tarde. E a noite chega para dizer que compreende perfeitamente essa gangorra. É assim mesmo: um dia chove, noutros dias bate sol e viva Chico Buarque e Francis Hime. Tem o dia que vira data, em geral por conta de um compromisso, e aquele em que um trabalho terá de ser entregue – nesse caso, é alçado à condição de prazo. Tem o dia útil, de vestir roupa de trabalho, tomar ônibus para o trabalho e café morno no trabalho, e de fazer parte de três reuniões, um dia tão no automático que devia se chamar inútil. Um dia, o salário vai chegar; no fim do mês, faltar. Há o dia de subir no avião e todos os outros em que a gente sonha com isso. De ter insônia e passar o dia seguinte numa ressaca sem festa ou bebida. Um dia, o coração vai destrambelhar e nem sempre por uma boa razão. Em quinze dias do ano dá pitanga, duzentos dá flor, todo dia tem formiga, em um deles o carro quebra, em dois sai briga na rua, e em quase todos a gente sorri (ao menos devia). O dia que marca a folhinha nem sempre bate com o que a gente vive. Glorioso é o dia sem boleto e injeção. Tem o dia ideal para subir em árvore, mas ficou na infância. Aquele sem nenhum propósito, em que a gente acha que já fez muito em escovar os dentes. E aquele raro em que ocorre um eclipse total que escurece às 11 da manhã, e nos deixa confusos: quando tudo volta ao normal, é o mesmo ou um outro dia? Um dia a pressão está alta, no outro, baixa, depende do calor, do sal, da correspondência sob a porta, da zaga do time, da prestação do plano de saúde, se a gente se lembrou de tomar os remédios e dela aparecer. Um dia morreremos, é verdade. Mas, em todos os outros, viveremos. É o caso de aproveitar.