(Pixabay) Há dois meses não chove nesta terra. Quem está no litoral, vivendo um inverno frio e chuvoso, vai estranhar, mas aqui no interior a secura está feia. Não sabemos viver assim, somos frutos dos trópicos, precisamos das folhas molhadas, das poças e bocas umedecidas. A estiagem nos desanima, o mato é uma palha só, os talos estão quebradiços, e os bichos estão com a língua de fora e a paciência no limite. Secos estão os olhos, se alegram menos com o que veem. Há uma boa safra de cisco e poeira, e a fumaça que arde a vista indica alguma queimada próxima – triste, quando surgida de causa espontânea; revoltante, quando provocada pelo homem. A água que cruza a cidade no canal, em geral generosa, agora é um fiozinho constrangido, que serpenteia o lixo que a pouca água revela. As bocas de lobo e bueiros se revelam inúteis, filtram e se entopem de galhos, folhas secas e restos que as águas costumavam levar. Tomo um copo d’água e assisto com um desânimo desidratado ao pó encobrir as vontades. Secos estão os ossos e os cabelos. Ontem mesmo houve uma chuva de fuligem no quintal – em vez de varrer, a vassoura desfazia as cinzas, cuja frágil substância sumia ao menor toque, até que, como a chuva, elas se transformassem em lembrança ou mentira. Até os insetos estão recolhidos, um ou outro arrisca um voo, uma aparição. Talvez uma cuspida junte um tanto de formiga; uma lágrima, algo menos numeroso, dois marimbondos, quem sabe – em busca de algum refresco. Dois meses e uma semana, sendo exato. Faço o possível para seguir a vida: ajusto o relógio, providencio as obrigações e os cabelos penteados. Chego à janela à procura de uma nuvem promissora, vejo apenas um sol imperador, despótico, a exigir obediência de tudo que está vivo, afinal, graças a ele. Quando, enfim, sossega e se deita atrás da montanha, dá lugar ao frio e às estrelas que, sem encontrar resistência, brilham assanhadas. Na temperatura baixa, nossa cafonice se revela: se lidamos mal com a estiagem, pior ainda com o frio: vestimos as roupas erradas, camisa de flanela azul com calça de moletom verde, casaco listrado com camisa xadrez, não sabemos dar nó no cachecol nem acender a lareira, e abusamos do vinho ordinário e do quentão, que é um troço enjoativo e desgraçado. Desisti de consultar a meteorologia e de esperar a vinda das nuvens generosas. Achei que viriam com as danças dos índios e os aviões que polinizam cristais para provocar chuva. Nada. Mas o desânimo vai passar. Basta um vento noroeste e as primeiras gotas para nos encher de esperança. Somos assim, os filhos dos trópicos: eternos e teimosos otimistas. Uma abelha apressada cruza minha frente. Não falei?