[[legacy_image_355377]] A gente escreve para conquistar a menina bonita. OK, não só por isso. Mas também por isso.Escreve para assombrar alguém sem que para isso precise virar fantasma. Porque as respostas não nos convenceram. Para poder pagar a comida e os impostos, já que não sabemos trocar lâmpada, fazer pastel e somos fracos para carregar tijolos. Para tentar dar alguma utilidade à insônia. Para (quem sabe) virar tema na prova de redação no vestibular. Assumir um ar abobado na mesa do bar e ainda assim causar admiração. Na busca de um antídoto. Porque seu amigo morreu de covid – quanta dor e horror há nisso – e você acha que não chorou o suficiente. Com a desculpa de ter mais de 60 anos e poder falar de desejo sem passar por um velho senil e pervertido. Para que alguém me leia no jornal, suje os dedos de tinta e, assim, seja obrigado a lavar as mãos, que lavar as mãos é algo sempre importante de se fazer. Ou para conter o sangramento. Porque uma vez me negaram o visto para a Inglaterra. Para que alguém se entretenha e se acalme na sala de espera do dentista. Porque cinco da manhã é muito cedo para fugir pela janela. Para que palavras como ‘batráquio’ e ‘brevidade’ não desapareçam, ou que minha estupidez seja confundida com excentricidade. A gente escrevia para encher o lixo de papel, hoje nem isso. Na intenção de contribuir sem que ninguém tenha pedido. Ter onde colocar a admiração que você tinha pelo Roberto Dinamite. Porque matemática nunca foi o forte. Para afastar todos os chatos do mundo por eles morrerem de medo de virar um personagem chato. Para que os outros vícios pareçam inofensivos. Justificar os milhares de dinheiros que seu pai gastou na sua educação. Porque você não está mais na idade de correr atrás de bola. Ou porque pregaram o homem na cruz? Passar o cadeado não foi suficiente para conter o espectro – é de medo que a gente escreve? Porque baixou em mim o Caboclo Escrevinhador. Porque não sabemos puxar o gatilho ou o que fazer com uma faca. Ah, é: a gente escreve para ser lido – e assim viro forte candidato ao Grande Prêmio da Obviedade Universal. Em verdade, nem sei porque a gente insiste, depois de Eça, Pessoa, Clarice, Bandeira, Rubem, Drummond, Raduan, João Cabral, Sophia Andresen, Saramago e um monte de gente aí – para ficar só na Língua Portuguesa. Em vez de escrever, talvez fosse o caso de apenas ler. Enfim: para apagar os incêndios. Ou para tacar fogo de uma vez. Minha quingentésima oitava crônica e não conquistei a menina bonita. Uma maçada mesmo. Por isso acho que essa não é bem a razão. Aliás, nem fui eu quem disse isso, foi um sujeito que deu uma entrevista dizendo que é por esse motivo que ele compõe uma música. Ou foi um pintor que explicava que... Ah, sei lá.