(Imagem ilustrativa/Pexels) Aviso os filhos das saudades que um dia eles vão sentir dos nossos almoços, em que ficamos horas à mesa conversando à toa? Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Devo prevenir a criança de que não é boa ideia ficar de pé no escorregador? A moça de biquíni de que o sorveteiro é meio tarado? Aquele cara meio bêbado do perigo que é escalar as pedras em volta da cachoeira? Digo ao vizinho que lavar o carro todo fim de semana só revela ao mundo a tristeza que é a sua vida? Devo ou não informar o político de que, se ele puser os pés por aqui de novo, vai levar croque? Aviso o jogador para bater o pênalti no canto direito (sei lá, porque sinto que o goleiro vai pular para a esquerda)? A joaninha avoada da sorrateira aproximação da lagartixa? Ou o balconista na padaria de que isso não é pão de cará nem aqui, nem na China? Comunico os marcianos de que tem gente na Terra querendo se mudar para lá antes que nosso mundo acabe? Devo lembrar o professor de que obrigar alguém de 14 anos a ler poemas simbolistas do século 19 nas férias não vai fazê-lo se apaixonar por livros? Convencer o orador a não passar de cinco minutos? Perdoar o homem do tempo pelo erro desastroso em sua previsão para o fim de semana? Fingir espanto e surpresa pelo truque manjadíssimo do mágico? Conto para o sujeito careca que aquela peruca só faz tudo desmoronar ou deixo pra lá? Aviso esses que se acham tão poderosos de que um dia não serão nada, e a cada ano serão menos ainda? Preciso lembrar todos os amigos do meu endereço? O garçom de que a caipirinha do diabético aqui é sem açúcar? O filho da importância de dar bom dia, a tia a não me ligar antes do sol nascer, o médico de me passar a receita, o cachorro a não encoxar as pernas da visita, o vizinho de cima a não desfilar de tamancos às quatro da manhã? Aviso a passeata da chegada da cavalaria? Os fotógrafos para deixarem suas câmeras de prontidão? Os policiais do mal que faz o gás lacrimogêneo aos asmáticos? Ou fico de butuca atrás da pilastra, só assistindo ao fuá? Tenho mesmo que advertir o meteoro em nossa direção de que, junto com algumas cidades feinhas e a crueldade do homem, ele estará destruindo também tudo o que Michelangelo, Bach, Chagall e Drummond criaram? Devo resistir ao desânimo? Desistir da ideia de estudar francês? Insistir com ela? Permitir que o desânimo tome conta? Persistir nessa busca sem trégua de que nem sei direito o que é? Pedir aos leitores que tenham um pouco de paciência comigo? Devo mesmo acordar o filho que chegou tarde, chamar a mulher que está no banho, a avó que assiste à televisão, a filha fechada no quarto e avisar a todos que o almoço (aquele) está na mesa?