( Pexels/ Pixabay ) Passei duas semanas viajando. Nesse tempo, suspendi a assinatura do jornal. Sim, sou daqueles homens das cavernas que ainda assinam jornal em papel e que deve recolhê-lo de manhã cedo, abrindo a porta com cara de travesseiro, torcendo para não encontrar nenhum vizinho. Sou viciado no seu cheiro, nas colunas tomando as páginas, no barulho que as folhas fazem quando viradas, até na mancha de tinta nos dedos. Mas, nesses 14 dias, as notícias não deixaram de chegar até mim, fosse pelo celular, pelo computador ou por outros meios – principalmente, por outros meios. O bando de maritacas, por exemplo: pousou na árvore em frente à minha janela, despejou aos gritos notícias alarmantes e saiu voando num escarcéu, como a fugir das consequências que viriam. Mas depois me dei conta de que eram fofocas ou exageros. Nuvens escuras e pesadas me trouxeram a notícia do aguaceiro, confirmada pela tosse do vento que fez a porta da copa bater. Corri para fechar as janelas e me posicionei no terraço, deitado na rede, à espera do acontecimento. Ver chuva forte cair ajuda mais a traçar os rumos desta vida que dicas de gerente ou conselho de parente. A notícia que recebo dela é que saiu por esse mundão e mais não se soube. A procissão de formigas carregando folhas cortadas prevê dias difíceis para a pitangueira. A coitada talvez espere de mim alguma providência, mas não há notícia de que eu vá fazer alguma coisa. Ainda mais com um calor desse. Pela gaitinha recebo a informação que o amolador de facas está passando pela rua; pela musiquinha do caminhão, que o gás está virando a esquina; pelo plim no celular, que meu filho não vem almoçar; pelos gritos e xingamentos, que o doidinho do bairro está uma fera com o mundo. Sinto falta da buzina do sorveteiro da infância e nenhuma notícia me esclarece o motivo do seu sumiço. Extra, extra! Interrompemos para uma notícia extraordinária: Maria conta que neva muito em Berlim e que, por isso, estreou seu cachecol de lã. Pronto, podem continuar. Por um amigo numa mesa de bar soube de uma notícia grave: uma garota (hoje uma senhora) de quem eu gostava quando adolescente foi presa, sentenciada a 26 anos. Era tão linda, de jeitos delicados, é difícil imaginá-la cometendo crimes. Hoje, deve ter seus 60 e poucos anos, como eu, e não receberá mais relatos do mundo. Caramba, que triste. Boa notícia: comprei um ar-condicionado portátil. Má notícia: ele tenta imitar o barulho de um helicóptero decolando. Não há sol para dar notícia de praia, não há brisa para mexer a folhagem. Também não tem mais a tia, nota triste que dezembro trouxe. Ligo o rádio que era dela e ficou pra gente, mas para ouvir música, não quero saber de notícias que contaminem a manhã. O som enlouquecedor das marretas da obra no apartamento de cima deu uma trégua no começo de ano, e volto a me dar conta de que a vida é boa. Portanto, jornais, celulares, rádios, maritacas, ventos e ondas: ouçam Caymmi, ouçam. E me tragam boas notícias daquela terra toda manhã.