(FreePik) Curioso como os sábios e filósofos da Antiguidade, gregos e romanos eram chegados numa banheira. Construíam termas e banhos públicos, aquedutos, tudo que garantisse à água o direito de ir e vir e, ao homem, o direito de não sair do lugar. Não sou sábio nem antigo (tá, um pouco sou sim), mas entendo perfeitamente aquele povo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Porque a resposta para o sentido da vida sempre esteve em uma banheira. É isso mesmo, caríssimo(a) leitor(a): num bom e demorado banho de banheira. Quando um homem é elevado à categoria de pensador, a refletir sobre os dilemas da existência. Filosofemos, pois. Entra-se com muito cuidado, nem tanto por medo de escorregão ou acidente, mas por obediência a um ritual milenar. Corpo imerso na água cálida, fazer como Platão: soltar um longo ‘aaaaaahhh’, esvaziando os pulmões, deixando-se levar pela esperança de nunca mais precisar sair, como um retorno à barriga da mãe (opa, filosofia com traços de psicologia). Os sons chegam sugeridos e a gente fecha os olhos para melhor enxergar. Mais um tempo e tudo parece um exercício de meditação. Há prazeres sutis, como ouvir a água gotejando, sentir o corpo vagabundo, um pouco de frio nos joelhos que ficam para fora da água, uma nesga de sol que entra pela janela e alcança o ombro. Ou outros mais escancarados, como mexer lentamente os pés, formando pequenas marolas. Com o tempo você redescobre verdades. Por exemplo, que uma bolha explode mais rápido do que devia. Ou que não se pode confiar na permanência da espuma. Reparar, na primeira ondinha que atravessa a borda, que você se esqueceu de colocar um tapete no chão. E se dar conta de sérios desapontos, como a água esfriar rápido demais ou descobrir que você se esqueceu de trazer a toalha. Banheira é praia só com o mar – OK, sem onda ou horizonte, mas também é difícil competir com o mar. Digamos que é um marzinho com limites. A poça do adulto. Uma piscina em miniatura. Mas, de repente, a água amornada já dá uns arrepios, o telefone toca, o banco exige, o trabalho chama, o tempo urge. É o mundo e sua secura impondo sua vontade. Aí você puxa a tampa do ralo e, a princípio, a água nem parece descer, tão vagarosa. Até que, como na vida, depois da metade tudo passa a ir depressa demais. A pele fica enrugada de tanto tempo na água. E no final, tudo escorre de vez. A vida leva uma desvantagem: não ter no final aquele barulhinho bacana do ralo chupando a água. Depois de toda essa meditação e bobajada, chegamos então a uma importante conclusão: a Antiguidade produzia filósofos bem menos bocós e mais qualificados. Às pencas.