(Unsplash) Acaso o leitor inveja alguém? Trinca os dentes diante do sucesso de um colega de trabalho? Rói-se por dentro ao saber da felicidade de algum desafeto? Não o faça. Porque este mês mesmo, hoje ainda, pode ser que aquele pobre mortal tenha que ir ao dentista. A consulta está agendada há duas semanas e é chegado o dia. Não é só a você que estão destinados os sofrimentos e caneladas deste mundo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A dor de dente nos iguala, filhos de Deus. Nivela ricos e pobres, remediados e realizados, santistas e corintianos, na dor e aflição: em algum momento da vida – pior, deste ano – todos teremos que ir ao dentista. Ninguém escapa. O marceneiro tem de ir ao dentista. O ex-presidente, o bispo e o pugilista têm de marcar consulta. A deusa da sua rua deve agendar uma hora. E se não o fizerem, poderão sofrer consequências ainda mais dolorosas. Penso que Karl Marx tenha pensado no comunismo ao constatar que todo ser humano é igual perante o sofrimento. Que Francis Bacon se inspirou em seus personagens torturados ao se lembrar da existência das agulhas e gengivas laceradas. A aflição começa antes: ainda na sala de espera, ao ouvir o som daquele motorzinho terrível que vem por trás da porta, e continua depois, quando chega no mês seguinte a conta a pagar pelo serviço. Tenho um irmão e um sobrinho dentistas. Cada consulta, portanto e felizmente, é seguida de um café e um bom papo (e um belo desconto no serviço – quando eles me cobram). O que alivia bastante o sofrimento. Pense se o seu invejado tem esse privilégio. Não sei o que ele(a) possuiu ou alcançou que fez nascer a sua dor de cotovelo – riqueza, um cargo superior, reconhecimento. Mas uma coisa eu sei: que ele(a) também tem cárie, excesso de tártaro, dor de canal ou um arrepio que trinca a alma cada vez que bebe água gelada. Sua inveja, portanto, é sem propósito, você devia é sentir compaixão pelo pobre. Portanto, se o leitor está tomado pela inveja de alguém, não se mortifique: basta imaginar a pessoa inclinada naquela cadeira em posição constrangedora, com luz na cara, boca cheia de algodão (mesmo assim o dentista insiste no impossível diálogo), dedos nervosos cravados nas pernas. E sua raiva passará, como passam as pontadas após a anestesia. Estamos juntos, irmão de infortúnio e sofrimento. E muito cuidado para a inveja não dar lugar a um sorrisinho de vingança, o que também seria uma lástima. É. As emoções que brotam nos homens vêm, voltam, somem, viram outras. Todas de difícil explicação. E tratamento.