(Gerada por IA) Fazer 63 é temer não ter fôlego para todas as velas. É ser tratado por senhor não por mera educação. Ficar ligeiramente invisível para quem tem menos de 30: você pensa que as moças reparam em você na calçada quando, na verdade, estão olhando para o que está atrás de você – o primeiro passo para se tornar um fantasma. E se você lhes dirige a palavra, elas gritam ‘tarado’, dão bolsadas e ainda chamam o segurança. Ter 63 é ficar pasmo de lembrar que Vinicius morreu em 1980 e você ainda se entristece com isso. É ter uma carta guardada na gaveta que jamais será aberta. Na rua, nunca resistir à fumaça que sai do carrinho do milho cozido e pedir uma espiga com pouco sal porque olha a pressão. É não se conformar com nunca ter voltado a Rio das Ostras. É finalmente entender a paixão e intimidade que sua mãe tinha com as primas. É descrer de uma vez por todas da sorte na loteria. Acreditar ainda ser possível dar a sua contribuição. Começar muitas frases com ‘no meu tempo’. Ficar impressionado como seus contemporâneos estão gordos e carecas (ter 63 é não se enxergar no espelho). É ser capaz de compreender o que dizem as letras dos médicos nas receitas. Ser um dos 128.744 resistentes a saber quem foi David Jones. Causar sensação com sua foto de 1978 na carteira. É ter três coletes na gaveta: um de abotoar, um tricotado pela sua mãe e outro comprado em Monte Sião em 1997. Querer saber, de uma vez por todas, como nascem e morrem os soluços. Não perceber que ninguém mais usa meia branca – nem com tênis, muito menos com sapato – porque ficou cafona. Espaçar cada vez mais os dias de fazer barba. Ser o único que telefona para um aniversariante para dar os parabéns, em vez de mandar uma mensagem pelo celular. É viver esquecendo onde deixou os óculos, mesmo deixando cinco óculos espalhados pela casa. Perder o sono sem motivo ou aflição. Optar mais por rever que desvendar. Desistir de dizer ‘saúde’ quando alguém espirra por perto, por precisar de toda saúde só para si. Descobrir-se falando sozinho quando comenta algum acontecido. Entender que os dias garoentos têm seu valor. Desconfiar da inocência das tosses. É maldizer a geração que deixou o país chegar onde está, sem se dar conta de que foi a sua. Ser uma das últimas pessoas no mundo a chamar carro de ‘automóvel’. Ter um orgulho idiota de viajar de pé no ônibus e se equilibrar firme nas brecadas. Sugerir jantar num restaurante bacana que fechou há cinco anos. Não lembrar o nome da amiga da avó que toda vez apertava suas bochechas. Insistir em assinar jornal de papel. Achar que alguns assuntos ainda interessam a alguém. E, acima de tudo, ser imensamente grato. Ter 63 é já ir deixando de ter. Fazer 63 é um pouco desfazer.