Os assessores de Trump têm planejado batidas de imigração em várias cidades importantes durante os primeiros dias da nova administração (RS/ Fotos Públicas) Foram tantas as medidas e decretos assinados logo após sua posse, que o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mereceria um caderno especial só com análises de especialistas, explicações e repercussões internacionais de cada uma delas. Ao lado de medidas como o perdão para os envolvidos na invasão do Capitólio em 2021 e o recrudescimento de regras até com os americanos filhos de imigrantes ilegais, uma ação coloca todo o planeta em alerta: a decisão de sair do Acordo de Paris, criado há exatos dez anos, e do qual os Estados Unidos eram signatários desde o início. Para Donald Trump, não há motivos para o país assumir compromissos e metas de descarbonização porque os Estados Unidos fomentam a economia de todo o mundo e, reduzindo as emissões, haverá impacto econômico interno e externo. Ninguém pode alegar que Trump não tem coerência. Tem, sim, porque sair do acordo para, supostamente, garantir a força da economia conversa com quase todas as outras 79 medidas anunciadas na segunda-feira, quando tomou posse. O objetivo de todas é dizer ao mundo que os Estados Unidos são fortes, dependem menos do resto do mundo do que o contrário, e de que qualquer ação anterior que coloque essa força e esse arrojo em risco será descontinuada. Ponto. Clima? Quem se preocupa com ele? Impressiona que os americanos deem guarida a essa atitude em especial, um retrocesso significativo e com consequências ainda não calculadas para o clima no mundo. Impressiona porque justamente os Estados Unidos têm sofrido sucessivas crises decorrentes dos eventos climáticos extremos: incêndios florestais na Califórnia no início deste ano, resultando em 24 mortes e mais de 150.000 evacuações; furacão Helene, em setembro do ano passado, que atingiu a costa leste dos Estados Unidos, causando 230 mortes em seis estados. Além disso, também em 2024, o furacão Milton ameaçou tornar-se o mais custoso da história da Flórida, com preocupações significativas sobre os danos às colheitas de cítricos e propriedades de alto valor na região da baía de Tampa. Esses eventos destacam a crescente frequência e severidade dos desastres climáticos nos Estados Unidos, muitas vezes exacerbados pelas mudanças climáticas. Como o líder de uma potência como os Estados Unidos, com esse histórico de tragédias climáticas, ignora o conjunto de ações que vêm sendo tomadas para mitigar os prejuizos, criar resiliência climática, salvaguardar as comunidades mais vulneráveis e equilibrar economia e meio ambiente para as próximas décadas? 2024 foi o ano mais quente da história, com as temperaturas bem acima dos 2º dos níveis pré-industriais, e tudo indica que este ano vai superar essa marca. Não é preciso dizer que essa previsão tem consequências gravíssimas para o equilíbrio climático do planeta, considerando ainda que também o oceano está mais quente e mais ácido. Trump precisará ser responsabilizado pelas consequências de seu ato. Diferente de Líbia, Iêmem e Líbia, que também deixaram o Acordo de Paris anos atrás, os Estados Unidos representam o segundo maior emissor de gases de efeito estufa no mundo, logo depois da China e ao lado da Índia. Sua medida será pauta de inúmeros debates, certeza, mas era importante reverberar dentro do próprio país, entre os americanos, para que tivessem a noção exata do que poderão enfrentar em muito pouco tempo. No ano em que o Brasil será a sede da próxima conferência do clima, a COP 30, essa é, sem dúvida, uma notícia bem impactante. Uma pena!