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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Fotógrafa relata contato com óleo nas praias do Nordeste: 'Lágrimas no meio da mancha preta'

Em especial para A Tribuna, santista Bruna Veloso conta que presenciou o desespero, a mobilização de voluntários e a incapacidade do Estado brasileiro de atender urgências

Um preto fascinante, elegante e com cheiro de morte. Assim descrevo, em meu caderno de anotações, meu primeiro contato com o petróleo que se destacava nas areias e fazia um contraste doloroso com o verde dos mares.

Quando criança, a brincadeira das férias era catar conchinhas à beira-mar. Ficávamos horas agachados e deslumbrados com a diversidade ou com aquela concha com o seu morador dentro. O movimento de agachar e coletar de uma infância se repete agora. Não houve uma praia entre Alagoas e Pernambuco em que eu não me debruçasse para catar pedaços de petróleo que surgiam com o vai e vem da maré.

Dia 30 de agosto, há exatos 60 dias, a primeira mancha de petróleo foi reportada na praia do Conde, na Paraíba. Dias depois, surgia em mais um ponto do litoral nordestino: Tamandaré, em Pernambuco, oficializando, assim, a suspeita de um vazamento de óleo crude algum navio ou plataforma, que se tornaria o maior crime ambiental em solo brasileiro. 

Praias estão cercadas das 'manchas pretas' (Foto: Bruna Veloso) 

Depois de sofrer com a impunidade das queimadas da Amazônia, as pessoas precisavam mais do que imagens do óleo derrubado nas areias e brigas improdutivas do Governo Federal sobre a autoria do crime, que foi mais um desvio de atenção sob a negligência do não acionamento do existente Plano de Contingência em caso de desastre com petróleo.

Os bastidores não divulgados, as pessoas que fizeram acontecer, como proceder ao ver uma tartaruga morta cheia de óleo, o descarte do petróleo recolhido, aquele pescador, que ficou duas semanas sem pescar diante de uma rede encharcada pelo produto. Usei a fotografia como a melhor ferramenta de descobertas e denúncias. Como fui de forma independente, tive liberdades e acessos a lugares a que a mídia oficial encontraria uma certa resistência. 

Articulações diárias são feitas entre institutos de conservação ambiental. Movidos por profissionais capacitados, esses grupos, na sua maioria independentes, tomam iniciativas ágeis, concretas e eficientes para resolver uma situação que caberia aos governos. Advogados, pesquisadores, engenheiros pediram férias de seus trabalhos para resolver pelo governo para seu povo.

Era notável o despreparo, ou o desinteresse, das autoridades em resolver, por exemplo, o destino do material tóxico recolhido nas praias. Lixeiras à beira-mar vazando, manchas pelos caminhos. Em uma praia, o dono de um resort contratou um caminhão para transportar o óleo recolhido pelas pessoas. 

Quem vai pagar essa conta?

Num dos maiores movimentos de voluntários, na praia de Maracaípe, compartilhei o desespero, a solidariedade e agilidade das pessoas para limpar as praias recém atingidas e as doações intermináveis de alimentos e EPIs - equipamento de proteção individual. 

Ninguém mais pisa na areia sem ter, ao menos, uma máscara no rosto e um par de luvas (Foto: Bruna Veloso)

Nos meus últimos cinco dias, foi notável a diferença de comportamento nas praias após a mídia dar ouvidos aos gritos dos voluntários, que mobilizaram todo o país através das redes sociais. Se, antes, a população caiu no mar num impulso fugaz e homérico, agora, ninguém mais pisa na areia sem ter, ao menos, uma máscara no rosto e um par de luvas. O certo seria nem pisar na areia.

Até a televisão nacional chegar, depois de 50 dias, mais de 200 toneladas de petróleo foram descartadas de forma irregular, aumentando a contaminação da região.

As doações continuam sendo privadas. A organização e limpeza continuam sendo dos voluntários. A presença do Exército e outros representantes existe tímida, e limpa, em meio ao povo. 

No ápice da crise das pesquisas científicas, provocada pelo atual governo, se fazem urgente as pesquisas do impacto ambiental e humano causado pelo vazamento e suas consequências.

Engenheiros e biólogos pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco, por exemplo, fizeram coleta de amostras de água e peixes e usarão recursos próprios para os estudos por não haver ainda nenhuma linha de acompanhamento na Capes ou CNPq. Se houver.

Nordeste é uma referência cultural rica, que invade os quatro cantos do Brasil. Com o desastre, ganha peso em outra referência: sua brava gente. Tinha lágrimas no meio da mancha preta, mas tinha muito mais força, enfrentamento e união.

O Estado brasileiro demonstrou, mais uma vez, sua incapacidade moral em atender urgências e proteger seu povo e suas terras. Demonstrou que a briga partidária por poder e interesses econômicos está acima do povo e esse povo nos lembra quem tem o poder, de fato: Nós temos o poder. E, por mais violenta e hostil que possa ser uma macha tóxica preta na beira da praia, é hora de começar a analisar nossas atitudes, ou a falta delas, e recomeçar uma nova fase no País.

O pintor Kandinsky diz que o preto é “como um eterno calar”. Mas, jamais vamos nos calar. 

Sobre a autora

É uma fotógrafa documental santista. Estudou fotografia na Escola Panamerica de Arte e Design de São Paulo e na London Communication College, em Londres. Percorreu 2.200 km por toda a extensão do litoral de Alagoas e Permambuco por 15 dias para entender, viver e documentar o maior crime ambiental brasileiro.

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