Idade média dos caminhões no Brasil está entre 12 e 15 anos e precisa ser diminuída (Alexsander Ferraz/ AT) O tráfego intenso de caminhões pelo Porto de Santos, no litoral de São Paulo, chama a atenção para os problemas verificados nos veículos, que podem gerar autuações das autoridades e, em alguns casos, impedir os caminhoneiros de trabalhar. Há outras questões em jogo, como o custo do frete e altos gastos com manutenção e combustível. Por conta disso, entidades ligadas ao setor mostram empenho na busca por soluções — e uma delas passa pela modernização da frota. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Litoral Paulista (Sindisan) vê a questão como fundamental. A presidente Rose Fassina cita o projeto Move Brasil, financiamento lançado pelo Governo Federal para estimular a renovação da frota brasileira de caminhões. O balanço mais recente divulgado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que o Move Brasil já alcançou R\$ 6,3 bilhões em recursos aprovados, o que corresponde a 63% da dotação orçamentária do programa, que é de R\$ 10 bilhões. Até a segunda semana de março, foram 4.620 operações, atendendo caminhoneiros autônomos, cooperados e empresas transportadoras rodoviárias de carga em 1.127 municípios de todas as regiões do país. O valor médio é de R\$ 1,07 milhão por operação. A maior parte dos recursos foi destinada à aquisição de caminhões novos para frotistas, com R\$ 4,9 bilhões, em 4.380 operações. Outros R\$ 110 milhões foram para clientes autônomos, em 239 operações até 13 de março. “Todo incentivo que facilite o acesso ao crédito e à modernização da frota merece ser observado com atenção, sobretudo em um setor em que a idade média dos veículos se manteve alta por anos e impacta diretamente custos operacionais, eficiência logística e segurança viária. A renovação da frota contribui também para redução de poluentes, melhoria das condições de trabalho e maior competitividade do transporte rodoviário de cargas no Brasil”, afirma. Segundo ela, o limite de financiamento de até R\$ 50 milhões por usuário do programa (no caso das empresas) é significativamente maior do que muitas linhas de crédito tradicionais. “O teto elevado é positivo para operadores de maior porte, mas pode ser menos atrativo para autônomos ou pequenas transportadoras que, na prática, não necessitam de valores tão altos. Quanto às taxas de juros, elas estão definidas abaixo de muitos níveis praticados no mercado para financiamentos de equipamentos pesados e, na avaliação do setor, são um elemento importante para que empresas e caminhoneiros possam considerar a troca de veículos antigos por modelos mais novos”, complementa Rose. A empresária cita que a idade média da frota de caminhões no Brasil está entre 12 e 15 anos, com diferenças entre segmentos — para o setor, considera-se como objetivo eficiente ter uma frota com idade média em torno de 8 a 10 anos. “Caminhões mais modernos apresentam melhores padrões de segurança, menor consumo de combustível e menores emissões de poluentes, fatores importantes em operações portuárias e de longa distância”. Um exemplo disso é o Programa Despoluir, da Confederação Nacional do Transporte (CNT). O sindicato oferece teste de opacidade gratuito para empresas associadas, com emissão de Relatório de Avaliação Veicular Ambiental e adesivagem do selo de aprovação do programa, em conformidade com os requisitos legais pertinentes. Diálogo Rose Fassina aponta que, no caso do Sindisan, há um diálogo com entes públicos como a Autoridade Portuária de Santos (APS) e demais órgãos envolvidos na logística e infraestrutura. “Nossas iniciativas incluem discussão sobre melhorias de infraestrutura e acessos rodoviários ao Porto de Santos, que impactam diretamente o tempo de operação e a produtividade das empresas transportadoras; articulação para reduzir gargalos operacionais nos terminais portuários, buscando maior eficiência logística e menor ociosidade de veículos; e interlocução com órgãos reguladores e operadores portuários para aprimorar procedimentos que envolvem o fluxo de caminhões, rastreabilidade e segurança da operação”, pontua. Outro ponto citado é que existe o trabalho de orientação desses profissionais sobre cuidados com os veículos e obediência da legislação de trânsito. “É algo que faz parte de uma atuação preventiva e de apoio ao setor. Essas orientações são promovidas por meio de publicações de material técnico e normativo na nossa Intranet e site oficial (sindisan.com.br), eventos e encontros para colaboradores de transportadoras associadas, como a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (Sipat) Unificada. Reunimos empresas associadas numa das três unidades do Sest Senat na Baixada Santista. Rose complementa dizendo que, embora o Sindisan não opere programas de capacitação formal próprios voltados exclusivamente para caminhoneiros ou responsáveis técnicos, “o sindicato mantém parcerias e interlocuções com entidades do setor para divulgar programas e cursos de capacitação relevantes, como o Sest Senat e Paulicon Treinamentos”. O valor do frete que não atende às necessidades dos caminhoneiros é visto como um dificultador (Vanessa Rodrigues/ AT) Frete insuficiente prejudica profissionais A questão do frete em valores que não atendem às necessidades dos caminhoneiros também é vista como um dificultador para a vida de quem roda pelas estradas do País. Na última quinta-feira, o Governo Federal publicou uma medida provisória (MP) que endurece as regras de cumprimento do piso mínimo do frete no transporte rodoviário de cargas. Estão previstas multas mais elevadas para contratantes que descumprirem o piso do frete, que podem variar de R\$ 1 milhão a R\$ 10 milhões por operação. Outro avanço é a implementação da fiscalização eletrônica integral dos fretes em todo o território nacional. O presidente da Associação Brasileira dos Terminais Retroportuários e das Empresas Transportadoras de Contêineres (ABTTC), Luiz Alberto Azevedo Levy Jr, afirma que o transporte rodoviário brasileiro, que responde por 63% da matriz logística, está bastante pressionado. “Custo elevado do diesel, manutenções caras, peças caras, pneus e tecnologia embarcadas ajudam a corroborar com margens comprimidas e fretes defasados em várias rotas Brasil adentro”. Para ele, o setor vive um período de regulação extremamente rígido, com controles de paradas, Vale-Pedágio Obrigatório (VPO), mudança nas questões regulatórias de seguro de carga e seguro ambiental, onde toda essa complexibilidade impacta diretamente o custo e a produtividade do caminhão. “O envelhecimento da frota brasileira é real, relevante e estrutural e o mais importante: não é um problema isolado, e está diretamente conectado à crise de motoristas e à baixa rentabilidade do setor”, pondera Levy Jr. Ele também cita a questão do crédito para renovação da frota. “Linhas existem, porém, o setor enfrenta uma restrição real de acesso e custo, que trava a renovação de frota e o crescimento. Com taxas de juros elevadas, o acesso a estas linhas está cada vez mais difícil de se viabilizar”, aponta, lembrando que, quem tem acesso a crédito hoje, tem vantagem estrutural no transporte rodoviário. Cumprimento das normas Com relação a soluções para apoiar os caminhoneiros na regularização dos veículos e no cumprimento das normas, o presidente da ABTTC também destaca algumas iniciativas, como programas relevantes, especialmente via Sest Senat, mas vê ainda insuficientes para reverter o déficit estrutural de motoristas. “O problema do setor não é mais falta de treinamento e, sim, a falta de profissionais entrando e ficando no segmento”, avalia. Levy Jr. considera, ainda, que o travamento correto de contêiner, por exemplo, não é apenas uma prática operacional e, sim, um pilar de segurança, compliance e gestão de risco no transporte rodoviário. No cenário atual e com a frota mais envelhecida e motoristas menos experientes, tem sido um ponto de atenção junto às empresas que operam com contêineres. “O Brasil possui excelentes empresas no segmento de transporte rodoviário que se preocupam com seus motoristas e vêm investindo muitos recursos visando a melhora do ambiente de trabalho destes motoristas. Controle de jornada, logística compatível, pontos de paradas bem definidos e seguros e descanso são algumas medidas que diversas empresas vêm adotando”, argumenta. O presidente da ABTTC reivindica “um plano de manutenção preventiva, renovação gradual da frota, embora cada vez mais difícil, simulações práticas, telemetria e monitoramento de jornada. São práticas que visam reduzir o número de infrações e melhorar o ambiente de trabalho do segmento”, finaliza.