Portos brasileiros devem estar preparados para a nova demanda, no momento em que atuam para descarbonização das próprias operações (Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Investimentos em hidrogênio verde podem representar um novo ciclo econômico para o Brasil, segundo especialistas entrevistados por A Tribuna. Os transportes terrestre e marítimo estão inseridos nesse contexto. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A diretora do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos, afirma que a possibilidade surge devido à abundância de recursos renováveis de alta qualidade disponíveis no País, aliados à alta demanda por produtos de baixa emissão de carbono. A Política Nacional do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, também chamada de Marco do Hidrogênio Verde, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no começo deste mês, vai ao encontro dessa proposta. “Há uma eficiência no processo e esse hidrogênio sai por um custo naturalmente mais baixo do que o dos nossos competidores internacionais”, esclarece Rosana. Como a segurança jurídica é fundamental para os investimentos, a diretora do Instituto E+ Transição Energética considera a legislação sancionada muito importante para a produção do hidrogênio verde no Brasil. “O marco define quem faz o quê dentro dessa cadeia do hidrogênio, o que pode ser considerado como hidrogênio de baixas emissões, além de ser importantíssimo para definir os padrões na produção”. Além das certificações, o Marco do Hidrogênio Verde cria mecanismos de incentivo para aumentar a atratividade dos projetos de produção de energia. Serão oferecidos R\$ 18 bilhões em incentivos fiscais pelo Governo Federal nos próximos cinco anos, com o objetivo de descarbonizar a indústria e os transportes. Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o Brasil já tem mais de R\$ 200 bilhões em projetos de hidrogênio verde anunciados no âmbito do Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2). Conforme o Plano Decenal de Expansão de Energia 2031, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério, o Brasil possui potencial técnico para produzir 1,8 gigatonelada de hidrogênio por ano, sendo aproximadamente 90% desse volume utilizando energias renováveis. Para Luciana Moreira, consultora da GO Associados, os incentivos governamentais têm papel fundamental para tornar o País competitivo no mercado internacional. “O Brasil não é atualmente competitivo nos custos de produção de hidrogênio verde, principalmente por conta dos elevados incentivos governamentais na produção de energia renovável em outros países”, afirma. Contudo, de acordo com ela, estudos da consultoria McKinsey & Company apontam que, até 2030, há a possibilidade de o Brasil ter o hidrogênio verde mais competitivo do mundo. “Os portos brasileiros devem estar preparados para essa nova demanda, ao mesmo tempo em que atuam para a descarbonização de suas próprias operações”, pontua. “Isso exige adequação da estrutura portuária e está em linha com a Agenda ESG, com a qual alguns portos nacionais já estão comprometidos, como o Porto de Santos”, complementa a consultora. De acordo com Rosana Santos, essa adequação será possibilitada pelo Marco. “Vai permitir que os portos se preparem para receber essas instalações ou plantas industriais de produção de hidrogênio”, afirma. “Nos portos, é possível fabricar o combustível e sintéticos para alimentar os navios”, diz. “Caso haja uma indústria estabelecida em torno do porto, é possível usar esse hidrogênio para a fabricação de produtos de baixas emissões, e esses produtos podem, inclusive, ser exportados pelo porto”, emenda. A respeito da exportação de produtos verdes, Rosana Santos destaca que esse processo pode destacar o Brasil no cenário internacional, dada a demanda por esse tipo de produto e pela qualidade dos recursos naturais do país para possibilitar a fabricação. Para o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Eduardo Nery, a política é o primeiro passo para os investimentos necessários. “Com isso, a médio prazo, será possível receber embarcações menos poluentes e implementar infraestrutura adequada que supra a demanda de energia elétrica”, complementou Nery. O que é O hidrogênio verde, identificado pela sigla H2V, é produzido por meio de fontes de energia limpas e renováveis. A produção é a partir da eletrólise da água, uma reação química provocada pela passagem de uma corrente elétrica. A produção do hidrogênio verde não emite gás carbônico e o elemento pode ser utilizado para fins que vão desde a geração de energia elétrica à produção de amônia para a fabricação de fertilizantes. Segundo Rosana Santos, do Instituto E+ Transição Energética, o H2V é uma das alternativas no combate ao uso de combustíveis fósseis e uma peça importante para a descarbonização de diversos processos. A produção de hidrogênio verde pode ser feita a partir da instalação de um eletrolisador junto à Usina Hidrelétrica de Itatinga, em Bertioga (Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Cais santista tem interesse na produção de energia limpa O Porto de Santos é um dos portos brasileiros interessados na produção de H2V. De acordo com o presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, o Porto cresce “observando critérios de sustentabilidade”. Ele lembrou que, em novembro do ano passado, esteve reunido com a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos, para pedir apoio do Ministério ao projeto de produção de hidrogênio verde no cais santista. A produção deve ser feita a partir da instalação de um eletrolisador junto à Usina Hidrelétrica de Itatinga, em Bertioga. A partir dessa produção, a APS teria condições de produzir, armazenar e distribuir o H2V para os consumidores, que seriam terminais portuários, navios acostados no cais, bem como empresas, indústrias e moradias da região. Conforme Pomini, uma das iniciativas da APS é a eletrificação do cais, o que permite que os navios atracados deixem de usar, no Porto, combustível fóssil. “É um dos principais projetos associados à ideia de um Porto mais sustentável”, afirma. A APS, em nota, acrescentou que, por meio da Portaria Dipre nº° 208, de 1º de dezembro de 2023, reduziu as tarifas cobradas dos chamados “navios verdes”, com cadastro e pontuação positiva no Índice Ambiental de Navios. Segundo a Autoridade Portuária, os descontos “também beneficiam os navios que navegam com frequência pela costa brasileira (cabotagem) e os de passageiros, como forma de incentivar o turismo”. Pecém O Complexo Portuário do Pecém, no Ceará, onde o presidente Lula sancionou o Marco, é considerado como o centro do H2V no Brasil. Com 19 mil hectares de área, o complexo portuário abrange os principais projetos do setor no País. O diretor comercial do Porto, André Magalhães, explicou como a produção do Hidrogênio Verde vai funcionar no complexo. Segundo ele, as empresas responsáveis ficarão instalados na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) Ceará, em uma área de 1,9 mil hectares, para receber novos investimentos. Magalhães detalha que o hub de Hidrogênio Verde no Complexo do Pecém vai oferecer, através de parceiros, soluções compartilhadas aos produtores. “Com isso, o produtor não precisa investir nesses equipamentos e, assim, consegue reduzir seus custos de produção”, explica. Ainda de acordo com o diretor, as primeiras decisões de investimento são esperadas para o próximo ano.