Hapag-Lloyd deve se consolidar como a quinta maior empresa de transporte de contêineres do mundo (Alexsander Ferraz/AT) A criação de uma nova companhia de transporte marítimo de contêineres a partir da aquisição da armadora israelense ZIM pela alemã Hapag-Lloyd deverá estimular a competitividade no mercado global. O negócio envolve mais de US\$ 4 bilhões (cerca de R\$ 21 bilhões), mas a conclusão da transação depende da aprovação de acionistas da ZIM e de autoridades reguladoras, o que é esperado até o fim do ano. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! A Hapag-Lloyd informa, em nota oficial, que as empresas assinaram o acordo em 16 de fevereiro e que a combinação de negócios com a ZIM consolidaria a sua posição como a quinta maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo, com uma frota moderna de mais de 400 navios, capacidade permanente superior a 3 milhões de TEU (unidade de medida equivalente a um contêiner de 20 pés) e um volume anual de transporte superior a 18 milhões de TEU. A Hapag-Lloyd adquirirá 100% das ações da ZIM por US\$ 35, cada, em dinheiro. A empresa israelense é a 10ª no ranking do setor. Com o negócio consolidado após a aprovação de acionistas e autoridades reguladoras, a Ação Estatal Especial (Ação Dourada) da ZIM, atualmente gerenciada pelo Estado de Israel, será transferida ao fundo de capital privado israelense Fimi Opportunity Funds. Esse fundo constituirá a nova empresa de transporte marítimo de contêineres israelense, que está sendo chamada de nova ZIM. A nova armadora atenderá rotas comerciais estratégicas, conectando-se à rede global da Hapag-Lloyd e abrindo mercado para Israel. A nova linha de contêineres começará com 16 navios modernos e eficientes. O CEO da Hapag-Lloyd, Rolf Habben Jansen, afirmou que “a ZIM é uma excelente parceira para a Hapag-Lloyd”, ressaltando que “os clientes se beneficiarão de uma rede significativamente reforçada nas rotas Transpacífica, Intra-Ásia, Atlântico, América Latina e Mediterrâneo Oriental”. Já o presidente do Conselho de Administração da ZIM, Yair Seroussi, disse que a decisão “representa a transação mais prudente e benéfica para todos os stakeholders da ZIM, que fortalece ainda mais o histórico de criação de valor excepcional que construímos desde o nosso IPO”. O fundador e CEO dos fundos Fimi, Ishay Davidi, ressaltou a importância estratégica da futura companhia de navegação. “A nova ZIM integrará significativas capacidades transatlânticas, além de rotas de navegação adicionais para a Europa, África, Mar Mediterrâneo e Mar Negro, apoiadas por avançadas capacidades de transporte marítimo global, mantendo sempre o cliente no centro de suas operações", salientou. Até a conclusão da transação, a Hapag-Lloyd e a ZIM permanecerão concorrentes e continuarão operando normalmente. Sua colaboração operacional se limitará aos acordos existentes de compartilhamento de navios e afretamento de slots (pagamento por uso de determinada quantidade de contêineres dentro do navio). Fusão segue tendência para ampliar presença comercial O engenheiro civil e consultor portuário Luis Claudio Montenegro avalia que a possível aquisição da ZIM pela Hapag-Lloyd segue uma tendência estrutural que já vem ocorrendo no transporte marítimo de contêineres há mais de uma década. Segundo ele, trata-se de um setor que exige grande escala operacional, investimentos elevados e alta eficiência logística. “A aquisição faz sentido dentro de um movimento de consolidação do setor. Em um ambiente de margens mais pressionadas após o ciclo extraordinário da pandemia, fusões e aquisições tornam-se um caminho natural para ampliar presença comercial, otimizar redes de serviços e diluir custos operacionais”, afirma. Para Montenegro, a operação reforça a concentração gradual de capacidade entre os grandes armadores globais, sem eliminar a competição no setor. “Mesmo com essa consolidação, o mercado continua competitivo porque as companhias operam em redes complexas de rotas e alianças que se reorganizam constantemente, mantendo uma dinâmica relevante de disputa por cargas e clientes”, explica o especialista. Impactos O especialista destacou que o impacto seria significativo no Porto de Santos. Atualmente, a Hapag-Lloyd responde por cerca de 14% dos navios que escalam os terminais de contêineres do Porto, enquanto a ZIM representa aproximadamente 4%. “Combinadas, as duas companhias passariam a concentrar cerca de 18% das escalas, o que faria da Hapag-Lloyd a segunda maior em número de navios frequentando o Porto”. No mercado brasileiro, Montenegro calcula que a integração elevaria a participação da companhia alemã de cerca de 12,9% para aproximadamente 15%, superando a CMA CGM e colocando a empresa na terceira posição no País. Infraestrutura O consultor portuário Luis Claudio Montenegro chama atenção para o debate sobre investimentos em infraestrutura portuária. Montenegro exemplifica citando que os gargalos operacionais no complexo portuário santista, onde a fila média de espera de navios chegou a quase 30 horas em 2024. “Limitar a participação dos armadores na expansão da infraestrutura vai na direção oposta à necessidade de reduzir congestionamentos no principal porto do País”, diz o consultor.