À esquerda, a imagem falsa que mostra os trabalhadores da empresa de energia elétrica com a acusação falsa de que eles seriam assaltantes. À direita, André Furtado e Robson Cardoso com o boletim de ocorrência por calúnia (Arquivo Pessoal/André Furtado) Um técnico de inspeção de energia elétrica e seu ajudante foram vítimas de calúnia após visitarem uma casa no bairro Marapé, em Santos, no litoral de São Paulo. A moradora do imóvel divulgou uma foto dos dois e a imagem passou a circular nas redes sociais como se ambos fossem assaltantes buscando entrar na casa das vítimas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O caso aconteceu na quarta-feira (25) e, desde então, as vidas de André Vergara Furtado, técnico de inspeção de 34 anos, e de seu ajudante, Robson Périco Cardoso, de 35 anos, viraram de cabeça para baixo. Bastou um dia para que eles soubessem do que tinha acontecido e começassem a sentir os efeitos da acusação injusta. “Estou ficando preocupado, não consigo dormir porque começo a pensar no que aconteceu”, desabafa Furtado. “Agora eu tenho que provar uma coisa que eu não sou pra todo mundo sabendo que as pessoas que compartilharam estão dormindo e vivendo o dia a dia normal”, disse o técnico de inspeção. Furtado e o ajudante trabalham para a Energia Ativa, empresa terceirizada da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), que emitiu um comunicado informando que os funcionários estão sendo vítimas de informações falsas (fake news) e reafirmando que os colaboradores estavam devidamente identificados por crachás visíveis durante todo o expediente. O técnico registrou um boletim de ocorrência por calúnia, ao qual A Tribuna teve acesso. Além de também ser vítima da calúnia, Cardoso, o ajudante de Furtado, chegou a ser intimidado pela população quando a dupla foi trabalhar no dia seguinte. O homem tinha ido pegar um documento no carro quando foi cercado por pelo menos sete pessoas que começaram a atacá-lo verbalmente, dizendo que a foto dele estava circulando nas redes sociais e acusando-o de ser um assaltante. Esse caso rendeu um segundo boletim de ocorrência por ameaça, registrado no 2º Distrito Policial (DP) de Santos. “Ele ficou nervoso e não conseguia se explicar. Até procurar a ordem de serviço para mostrar, deu essa briga toda. Só amenizou porque quando eu vi aquela gente toda eu acionei uma viatura”, conta o técnico Furtado. Inspeção no Marapé Segundo o boletim de ocorrência, Furtado e Cardoso foram até o endereço no Marapé fazer a troca dos medidores de energia. O técnico e o ajudante não chegaram a entrar no imóvel. A mulher responsável pela imagem ficou dentro da casa, mas o pai da moradora acompanhou todo o serviço dos dois funcionários. A foto, na verdade, é uma captura de tela das câmeras de segurança da residência. A moradora justificou ter achado estranha a presença de Furtado e Cardoso no local. Ao ser avisado que a foto estava circulando nas redes sociais, Furtado e seu encarregado foram falar com a mulher e, após encontrarem a casa pela fachada, acionaram uma viatura da Polícia Militar (PM) para esclarecer o mal-entendido. Segundo o técnico, a moça admitiu ter colocado a foto dos dois em um grupo de segurança dos moradores, mas sem a legenda caluniosa. No entanto, a imagem teria vazado e ido para outras redes sociais, onde algum usuário adicionou a acusação. Questionada pelo policial sobre porquê divulgou a foto dos trabalhadores sem acionar a polícia, a moça teria respondido que preferiu usar “outros meios” para conseguir respostas. Agora, Furtado deve buscar orientação de um advogado e possivelmente entrar na Justiça, mas seu verdadeiro objetivo é voltar a trabalhar tranquilamente na profissão que exerce há 12 anos. “A primeira coisa que eu quero é poder me justificar para todo mundo. Não queria dinheiro de ninguém. Eu queria pelo menos a minha liberdade e minha vida de volta”, diz. Fabiane de Jesus foi confundida com um retrato falado (Arquivo Pessoal) Notícias falsas matam Há dez anos, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, que tinha 33 anos, foi brutalmente espancada no bairro Morrinhos, em Guarujá. O motivo do linchamento é que a mulher foi confundida com uma suposta criminosa que estaria sequestrando crianças para rituais de magia negra. Ela morreu no hospital e, na época, o caso ficou conhecido como “A Bruxa do Guarujá”, mas não havia nada de místico no que aconteceu. A tragédia era puramente humana. O caso já foi abordado pelo programa Linha Direta, da TV Globo, e também foi inspiração para a novela de Travessia, escrita por Glória Perez. Anos após o linchamento, a família de Fabiane tenta responsabilizar todos que colaboraram com a tragédia, incluindo o Facebook, plataforma onde as postagens falsas foram veiculadas. Se engana quem pensa que episódios como este ficaram no passado. Em 2023, exatamente nove anos depois da morte de Fabiane, outro crime brutal ocorreu por conta da disseminação de notícias falsas entre moradores no Guarujá: um motociclista foi espancado por um grupo após um grito de ‘pega ladrão’. Neste caso, ele sobreviveu, mas precisou ser internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por conta dos ferimentos.