Em vídeo, o pastor Flávio do Amaral, de 48 anos, diz que jovem trans que cometeu suicídio "foi para o inferno" (Reprodução/ Redes Sociais) O pastor evangélico Flávio do Amaral, de 48 anos, que se intitula ‘ex-travesti’, admitiu, em vídeo publicado no dia seguinte ao suicídio de uma seguidora de sua igreja, que obrigou a jovem trans a jejuar após ela confessar estar apaixonada por outro fiel. Letícia Maryon, de 22 anos, vinha sendo submetida a um controverso processo de destransição de gênero e ‘cura gay’ até atentar contra a própria vida no último dia 27 de setembro. (Veja vídeo mais abaixo) Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Flávio do Amaral reside em Itanhaém, na Baixada Santista, litoral de São Paulo, e é pastor do Ministério Libertos por Deus (LPD). Em seu canal no YouTube, onde o vídeo havia sido publicado e foi retirado, ele prega a 'cura gay' e a reversão da transição de gênero por meio de jejum, fé e orações, além de defender um contundente discurso de intolerância contra pessoas LGBTQIA+. O religioso possuía uma conta no Instagram, que foi desativada, e concedia entrevistas a famosos que comandam podcasts nas redes sociais e no YouTube. No vídeo sobre Letícia Maryon, ao qual A Tribuna teve acesso, o pastor faz relatos alarmantes. “Ele tentou agarrar um dos meninos, eu briguei com ele e fiz ele jejuar. Ele não queria”, disse Amaral logo no início (referindo-se a Letícia pelo gênero masculino). -Veja o vídeo (1.441547) O pastor continuou: “Eu estou muito abalado. É o pior dia da minha vida”. E, então, ele confessou um abuso psicológico: “Num vídeo, eu o envergonhei para ele nunca mais voltar para a droga, olha o que Satanás fez”. Amaral prosseguiu declarando que está um 'lixo' e que não “deu conta de salvar a vida dele”, mas pede orações para si e não para a jovem que morreu, dizendo ainda que ela “foi para o inferno”. "Poderia ter sido pior" Ele finalizou deixando claro que está preocupado com a quebra do vínculo dos dois com a igreja: “E poderia ter sido pior, porque eles estavam tramando fugir juntos do LPD. Que a sua morte seja para dar vida a milhões de outros e que fique de exemplo que, sem Jesus, nada podeis fazer. A droga mata, o adultério mata, a prostituição mata e a homossexualidade também mata”. Denúncia ao Ministério Público O caso chegou à deputada federal Erika Hilton (PSOL), que entrou com uma representação junto ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) contra Flávio Amaral, juntamente com a vereadora da Câmara Municipal de São Paulo Amanda Paschoal (PSOL), em setembro, logo após o suicídio da jovem. Elas acusam o pastor de transfobia e tortura. A denúncia foi aceita pelo Ministério Público que requisitou abertura de inquérito à Polícia Civil contra o pastor. Capturas de tela de publicações do religioso foram anexadas ao documento enviado ao MP. Em um dos prints, Amaral afirma que uma influenciadora trans "parece o Satanás" e em outro declara que um homem trans gerando um filho é uma "abominação". Defesa Procurado, um dos advogados de defesa, Jean Paulo Pereira, informou que o pastor Flávio do Amaral prestará depoimento à Polícia Federal, em Santos, no dia 29 de janeiro de 2025, pela manhã, sem dar mais detalhes sobre a convocação ou sobre o que ele dirá às autoridades. O outro defensor do pastor é o advogado Florentino Rocha Conde. Em nota, a defesa informa que não comentará sobre a denúncia apresentada ao Ministério Público, pois “não teve acesso à mesma, tomando conhecimento do fato apenas pelo que foi publicado pelos meios digitais”. Os advogados afirmam que Flávio “não teve participação direta com os fatos ocorridos em 27 de setembro deste ano”. Por fim, a nota contradiz as próprias manifestações do pastor no último vídeo divulgado por ele, ao afirmar que ele não impõe "prática de condutas vexatórias” e “não defende nenhuma prática fraudulenta de ‘cura’, até por entender que a orientação sexual do próximo, qualquer que seja sua escolha, não deve ser classificada ou rotulada como doença”.