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Sexta-feira

3 de Julho de 2020

Criança que teve rosto dilacerado por pit bull de Luciano Batista corre risco de novas cirurgias

Menina de 5 anos levou mais de 40 pontos após ser mordida por cão na cabeça, rosto e pescoço. Caso que envolveu o ex-deputado ocorreu na noite do último sábado (27), em São Vicente

Um cachorro da raça pit bull, que era conduzido pelo ex-deputado estadual Luciano Batista, atacou e causou sérios danos a uma criança de 5 anos. O caso ganhou grande repercussão durante o último fim de semana. A advogada da família da vítima afirma que o animal não possuía os aparatos de segurança imposto por lei - estadual e municipal -, e apresentou fatos diferentes dos que foram divulgados pelo político vicentino, um dia após o incidente. O caso segue sob investigação em inquérito policial.

ATribuna.com.br converou com a advogada Natália Bezan Xavier Lopes, que representa a família no caso. Segundo a mãe da criança, tudo aconteceu na noite de sábado (27), quando ela estava com a filha em um parquinho na orla do Itararé, em São Vicente. Em determinado momento, o ex-deputado surgiu com um pit bull na região próxima ao parquinho, o segurando com uma mão, enquanto falava ao celular com a outra mão, quando o cachorro escapou e atacou a criança.

Ainda segundo o testemunho da mãe para a advogada, Batista tentou segurar o cão pela coleira, mas acabou caindo no chão, enquanto que a criança foi mordida na mão e na região da boca. A mãe, então, entrou em luta corporal com o cachorro para salvar a filha. Ela conseguiu soltar a mandíbula do animal e a carregou até um posto do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para primeiros socorros.

A advogada da família afirmou que a criança foi socorrida às pressas até o Hospital Municipal, onde recebeu primeiros atendimentos e fez uma tomografia. Na sequência, ela foi levada até um hospital particular, em Santos. "Ela teve escoriações na mão e dilacerações no rosto. Levou de 30 a 40 pontos na face. No ponto de vista de recuperação ela está bem, em casa, mas não podemos precisar as sequelas físicas por conta da dilaceração do rosto, se ela precisará se submeter a mais cirurgias", comenta.

A advogada afirmou que o cachorro não estava com enforcador e nem focinheira, aparatos de segurança para cachorros de grande porte, que são obrigatórios em vias públicas. "A guarda do animal não foi feita do jeito correto. Quanto a isso não existe questionamento. E muito me espanta isso ter vindo de uma pessoa que é ex-vereador é ex-deputado, tem o total conhecimento das leis municipais e estaduais sobre o assunto", finaliza.

A mãe da criança já foi comunicada para prestar depoimento na delegacia de São Vicente, que abriu um inquérito policial para investigar o caso. "Tudo será acompanhado e resolvido". A criança recebeu alta já no domingo (28) e está em casa com a família, em São Vicente. Os familiares não comentaram sobre consequências estéticas e psicológicas devido aos ferimentos.

O que diz o ex-deputado

No dia seguinte ao caso, no domingo (28), o deputado postou um vídeo em seu perfil nas redes socais explicando a sua versão do que ocorreu. Ele afirmou que o cão é de uma vizinha de seu prédio que, impossibilitada, pediu a ele passear com o animal – gentiliza que ele garante realizar há anos.

Batista afirmou que passeava com o cão pela orla do Itararé, quando o animal se assustou com a aproximação da criança, que estava em um triciclo infantil. Ele, que estava de fone de ouvido e não percebeu a aproximação da criança, entrou em luta corporal com o animal e, por isso, garante que foi mordido no braço, no qual levou sete pontos.

Ele afirma ainda ter acompanhado a criança até a unidade médica, para ter ciência do estado de saúde. “Nunca passei por esse pesadelo, não desejo isso a ninguém. Foi uma coisa que vai ser difícil tirar da minha cabeça, imagino para a mãe da criança, que foi muito valente’, desabafou, na publicação.

Além disso, Batista afirmou que manteve contato com a família da criança. “Mandei mensagem para os pais, por meio de amigos, para dizer que estou à disposição para o que precisarem. O mais importante é a vida da criança”, diz.

Os responsáveis da criança afirmaram, no entanto, que não receberam qualquer ligação ou contato por parte do ex-deputado sobre o ocorrido. A família também negou a versão de que Batista foi ao hospital municipal para visitar a criança na internação, mas sim, ele compareceu a unidade de saúde para atendimento próprio, sem qualquer contato com a família da vítima.

O que diz a polícia

Caso foi registrado na Delegacia de São Vicente, que abriu inquérito policial para investigação (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Após ter sido atendido no Hospital Municipal, Luciano Batista foi até a delegacia de São Vicente para o registro da ocorrência. ATribuna.com.br teve acesso ao boletim de ocorrência, assinado pelo delegado Thiago Esfinha Garcia. A advogada da família confirmou que a mãe ou nenhum outro familiar da criança compareceu à delegacia na noite de sábado.

Segundo o histórico da ocorrência, Luciano Batista relatou que estava com fone de ouvido andando com o cachorro, usando o enforcador para passear, quando ouviu a criança, de 5 anos, perguntar: 'eu posso passar a mão nele?'. Luciano, prontamente, respondeu 'não'. Após o diálogo, segundo o registro do B.O., a criança teria estendido a mão para passar no cachorro, o que ocasionou o ataque do animal, que a mordeu no rosto, cabeça e pescoço.

Luciano, então, afirmou que se jogou em frente ao cachorro a fim de salvar a criança e prestando os primeiros socorros para ela.

Ainda de acordo com a Polícia Civil, o ex-deputado teria confessado ter um revóver com licença vencida. Foi solicitado que ele entregasse o armamento para apreensão. Luciano assegura ter entregue a arma de fogo sem munição às forças policiais. Foi justamente a posse desse item que gerou a informação que ele teria sido detido. Essa versão foi negada pelas autoriedades de segurança pública.

Redes sociais

Vídeos de testemunhas que estavam no local do incidente, que circularam nas redes sociais, indicaram diversos rumores do que teria acontecido. O principal deles, foi de que o ex-deputado teria sido agredido pelo pai da criança e, depois disso, teria sacado a arma para ameaçar o familiar da vítima. Isso não aconteceu. A advogada da família afirmou que o pai não estava no local do ataque do cachorro, pois ele mora em São Bernardo do Campo, e só encontrou com a filha já no hospital.

Gravação de redes sociais mostra o ex-deputado, de bermuda azul, conversando com policiais militares junto com o pit bull (Foto: Reprodução)
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