À esquerda, o motorista Patrik do Nascimento Silva. À direita, o empresário Fábio Mocci. (Reprodução/Arquivo pessoal) A confeiteira Maria Aparecida Dias de Araújo Silva, de 50 anos, está revivendo um pesadelo. A morte do empresário Fábio Mocci, de 44, durante uma ressonância magnética realizada em uma clínica de Santos, foi um golpe em uma ferida que não chegou a cicatrizar: a morte de seu marido, o motorista Patrik do Nascimento Silva, de 44, em 2021, momentos após passar por um exame na coluna. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Desde agosto de 2022, a Mult Imagem, clínica na Vila Mathias onde ocorreram as duas mortes, responde na Justiça ao pedido de indenização no valor de R\$ 75 mil por danos morais, movido por Maria Aparecida. Segundo o advogado dela, Sérgio Zagarino Júnior, o processo aguarda pelo julgamento e, além da área cível, ainda há a possibilidade de a clínica ser responsabilizada na esfera criminal e administrativa. Desde quinta-feira (24), A Tribuna tenta contato com a clínica, mas até esta terça-feira (29) não obteve retorno. Ainda conforme Zagarino Júnior, há um laudo pericial favorável à viúva. No documento, o médico perito judicial conclui que “o réu não agiu dentro da boa prática médica, pois deixou de cumprir os deveres de informar adequadamente e de solicitar os exames necessários”. Além da Justiça, a luta de Maria Aparecida é diária: até hoje, ela faz acompanhamento psicológico e psiquiátrico. “Todo dia eu dobro os meus joelhos e peço para Deus me deixar ser a voz que ele não teve para falar o que aconteceu. Foram três anos de silêncio”, desabafa. “Não queria que acontecesse do jeito que aconteceu com a Sabrina [viúva do empresário]. Estou orando pela vida dela e da família", diz. À esquerda, Maria Aparecida Dias de Araújo com o marido Patrik do Nascimento Silva. À direita, Sabrina Altenburg e o marido Fábio Mocci (Reprodução/Arquivo pessoal) A história se repete Segundo Maria Aparecida, a comerciante Sabrina Altenburg Penna, de 44 anos, viúva de Fábio Mocci, a contatou no sábado (26) pelas redes sociais. “Acordei com mensagem dela. Ela me chamou, se apresentou e colocou o link da reportagem. Na hora, meu coração gelou. Eu tô desde sábado sem conseguir dormir direito pensando porque o relato é igual”, diz a confeiteira. A principal diferença, é claro, está na data. Era 14 maio de 2021 quando Maria Aparecida e o marido saíram de Guarujá e foram até a Mult Imagem para Patrick passar por uma ressonância magnética. Ele conseguiu marcar o exame por meio de um encaixe, por causa da dor que vinha sentindo há, pelo menos, duas semanas, quando havia celebrado seu aniversário de 44 anos. Na festa, sua coluna travou. O dia do exame era uma sexta-feira e, segundo Maria Aparecida, a clínica estava lotada. Enquanto esperava pela vez de Patrik ser atendido, o casal conversava e a esposa preenchia toda a ficha com as condições de saúde dele. Demorou até o motorista ser chamado. “Ele tirou a aliança, me deu e disse: ‘Daqui a pouco, eu volto’”, lembra a confeiteira. Nenhum dos dois sabia que aquela era uma despedida definitiva. Patrik tinha diabete e fazia tratamento com medicamentos. Além disso, era obeso e tinha claustrofobia (medo de locais fechados), no entanto já havia passado por outras ressonâncias. Conforme a viúva, tudo isso foi informado antes da realização do exame. E até por conta da fobia, o motorista optou por fazer a ressonância sedado. Diferentemente do empresário Fábio, ele saiu da sala de ressonância com vida. Maria Aparecida lembra que também demorou bastante até ela ser acionada para acompanhar o marido na sala de recuperação, mas logo quando chegou percebeu que havia algo errado. As pontas dos dedos e os lábios de Patrick estavam arroxeados. Mas ele estava, sem dúvidas, vivo: a viúva lembra que o marido dormia profundamente, de uma maneira até estranha, mas chegou a roncar alto, puxando o ar. “Eu até brinquei com ele: ‘Oxe, tá pensando que você tá em casa? Não faz essa palhaçada não, que quem veio dirigindo foi você’”. Apesar das cutucadas e dos gracejos da esposa, Patrik não acordava. Depois de cerca de dez minutos, ela pediu ajuda para os médicos para despertar o marido. O anestesista foi acionado e pediu para que ela e os demais pacientes e acompanhantes fossem retirados da sala de recuperação, para ele dar a atenção necessária ao motorista. Assim como no caso do empresário, a espera foi de cerca de 40 minutos até Maria Aparecida receber a pior notícia de sua vida. Quando a confeiteira voltou a entrar naquela sala, a cena que viu foi de tragédia: uma enfermeira estava chorando, exausta, após tentar fazer massagem cardíaca em Patrik. Os médicos tinham tentado, sem sucesso, entubá-lo e, por isso, havia diversas gazes no chão — algumas até ensanguentadas. Não foi só ele que morreu: minha família morreu ali. E um pedaço de mim foi e não volta mais”, lamenta. Maria Aparecida e Patrik tinham planos de aumentar a família e trocar de carro (Reprodução/ Arquivo pessoal) Busca por respostas na Justiça Com a morte de Patrik, muitos planos foram interrompidos. O casal tinha sonhos de inaugurar uma loja física do negócio de Maria Aparecida, que vende salgados via delivery; pretendia adotar uma criança e trocar de carro. “Minha vida foi toda destruída: eu perdi meu marido, meu trabalho, minha casa, tudo, em questão de horas”, diz a viúva. Naquele dia, questionados sobre o que tinha acontecido, os médicos da clínica responderam à viúva que foi uma “intercorrência”. Ela não aceitou essa explicação até hoje. Desde então, o que ela recebe da Mult Imagem é apenas silêncio — uma agonia para quem precisa de respostas. “A gente fica sem uma explicação, sem uma justificativa, sem eles apresentarem o que fizeram antes do exame. Esse vazio corrói a gente”, diz Maria Aparecida. Para A Tribuna, o advogado Zagarino Júnior, que representa a viúva, explicou que entrou com uma ação de responsabilidade civil considerando que existiu uma conduta ilícita que causou um dano, no caso, a morte de Patrik. No processo, foi aplicado o Código de Defesa do Consumidor, o que implica no fato de que o caso não discute a culpa. Existe um nexo de causalidade entre a morte com a conduta ilícita praticada pela empresa”, explica. “Esse nexo causal foi apontado agora na perícia médica, que demonstra que faltou zelo na hora da prática médica”, diz o advogado. No entanto, isso não exclui a possibilidade de responsabilização da clínica na esfera criminal e administrativa. Seriam três processos. Em outras palavras, é uma batalha longa, diária e dolorosa, por isso Maria Aparecida se compadece de Sabrina, a viúva do empresário morto na última terça-feira (22). Fábio Mocci Rodrigues Jardim deixou duas filhas, de 6 e 14 anos (Arquivo pessoal/ Sabrina Altenburg) Morte do empresário O empresário Fabio Mocci Rodrigues Jardim, de 42 anos, morreu durante exame de ressonância magnética realizado na clínica no bairro Vila Mathias, em Santos. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil, após o laudo do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) do Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim (Cejam), localizado no Hospital Guilherme Álvaro, apontar que o paciente teve uma parada cardiorrespiratória após receber 15 mg de um sedativo para realizar o exame. No documento do SVO, consta que é "prudente e necessário o exame necroscópico e toxicológico a ser realizado por perito médico legista (CID - Y140 - Envenenamento [intoxicação] por exposição a outras drogas, medicamentos e substâncias biológicas, não especificadas]". O corpo do empresário foi enviado para o Instituto Médico Legal (IML) e o laudo que deve concluir a causa da morte deve sair nos próximos 90 dias. A viúva Sabrina Altenburg Penna, de 44 anos, acompanhou o marido durante o exame realizado na clínica Mult Imagem na última terça-feira (22). Ela foi informada de que o esposo havia morrido por causa de um infarto fulminante sofrido dentro da máquina de ressonância magnética e, agora, busca respostas. A intenção dela não é apontar culpados, mas, sim, descobrir o que houve. “Quando veio esse laudo [do SVO], eu fiquei totalmente perdida e angustiada. Meu coração apertou demais. O que aconteceu com ele? O que ele passou? Eu preciso saber”, diz. O casal Fábio Mocci e Sabrina Altenburg, juntos há 11 anos (Arquivo pessoal/ Sabrina Altenburg) Em nota, a Prefeitura de Santos informou que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado por volta das 15h. Segundo a Administração Municipal, os profissionais encontraram o empresário sendo atendido por um médico da clínica. A Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou que o caso está sob investigação no 2° Distrito Policial de Santos. O laudo no IML está em andamento e, assim que finalizado, será analisado pela autoridade policial. "Vale esclarecer, que o processo para conclusão dos laudos demanda tempo devido à sua complexidade e o prazo pode ser estendido por questões técnicas, em casos excepcionais. Quando isso ocorre, a autoridade solicitante sempre é comunicada", diz a nota da secretaria.