[[legacy_image_217006]] Há exatos dois anos, vim para Portugal com um objetivo: estudar mais a fundo a edição de livros. Agora, esse ciclo está chegando ao fim e me ponho a pensar no rebuliço que estes 24 meses significaram na minha vida. Foram os anos mais inacreditáveis que eu poderia viver. Distância, saudade, pandemia, luto... Nem imaginei o que me esperava quando entrei naquele avião. Mas também houve descoberta, aprendizado, renascimento, novas chances. Um recomeço meio aos tropeços, de quem não sabe caminhar por uma trilha que fugiu completamente do roteiro. É curioso como não sabemos o que fazer com essa tal liberdade, como diz a letra de uma canção dos anos 90. Mas, hoje, mantenho com mais naturalidade a ideia de não ter planos muito bem traçados. Consigo imaginar apenas um esboço do que virá agora, com o fim do mestrado. Eu me dei a liberdade de não ter nenhum plano profissional traçado rigorosamente para os próximos anos, mesmo que pareça a mim mesma que ando à toa pela vida. No final, percebo que não consigo ficar triste por passar a maior parte do tempo sem fazer grande coisa além de ficar em casa. Explico: trabalho em home office para empresa aérea que passará a me oferecer, como um dos benefícios, viagens algumas vezes ao ano por preços absurdamente baixos. Mas, mesmo diante da real possibilidade de poder apreciar o planeta todo, eu consigo não ficar ansiosa para ir, justamente por me sentir bem exatamente onde estou. Claro que será muito legal viajar. Continuo adorando a ideia de ter contato com outras culturas, idiomas novos, gente diferente... Mas há alguma coisa em mim que encontrou o que eu acho que procurava fora. Talvez eu nem saiba direito o que é, só sei dizer que esse desconforto se apaziguou. Já não me apetecem as grandes aventuras, até porque o dia a dia está cheio delas, com seus acontecimentos e desacontecimentos inesperados. Hoje, eu abro os olhos e consigo ver o mundo todo diante de mim: ele está todo ao meu redor, com suas oportunidades para me fazer escolher ou com a falta delas, para me fazer criar. Nesse momento, o meu sonho é ter sossego. Sem planos rígidos, sem cobranças intensas, sem objetivos que exigirão esforço, desgaste ou escolhas difíceis. Tenho a sensação de que minha vida até hoje se guiou por isso, e que corri atrás dessas coisas para encontrar sentidos. Mas descobri que o sentido está em qualquer lugar que quisermos colocá-lo. E isso inclui um lugar de sossego. Nenhum título, posição profissional ou status social vai me fazer mudar esse não plano, ao menos por enquanto. Aliás, os não planos podem gerar surpresas muito especiais. Eu decidi arriscar para ver e uma novidade que surpreendeu até a mim mesma está para acontecer. Mas isso já é história para uma próxima crônica.