Alunos foram detidos pela Polícia Militar (Divulgação/14º BPMI) Um jovem de 18 anos foi preso e dois adolescentes foram apreendidos acusados de torturar estudantes mais novos durante trotes na Etec Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros, em Iguape, no litoral de São Paulo. A ação ocorreu entre quinta-feira (13) e sexta-feira (14), após investigações que identificaram vítimas de agressões dentro do alojamento masculino da escola. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em nota, o 14º Batalhão da Polícia Militar do Interior (14º BPM/I) informou que o jovem maior de idade foi preso e permanece à disposição da Justiça. Já os dois adolescentes foram apreendidos e encaminhados à Fundação Casa, sendo levados para uma unidade em Peruíbe. Segundo a corporação, o adulto responderá por tortura, lesão corporal e constrangimento ilegal. Os menores responderão por ato infracional análogo aos mesmos crimes. De acordo com o 14º BPMI, as autoridades tomaram conhecimento das denúncias na quarta-feira (11). A partir do registro do boletim de ocorrência, a Polícia Civil iniciou a apuração e identificou cinco vítimas e três autores. “A atuação integrada das instituições permitiu dar uma resposta firme à sociedade e às vítimas, representando um passo importante na responsabilização dos envolvidos e na promoção de um ambiente escolar mais seguro”, concluiu a corporação. Relembre o caso Os alunos passaram por uma série de episódios de tortura dentro do alojamento masculino. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), os três estudantes envolvidos na promoção do trote foram ouvidos e liberados na delegacia. As ações foram registradas em vídeos. Conforme apurado por A Tribuna, a escola recebe alunos de diferentes cidades do Vale do Ribeira e mantém alojamentos para estudantes que não conseguem se deslocar diariamente até a unidade. Segundo familiares, cerca de 28 adolescentes vivem no alojamento masculino. De acordo com as denúncias, os trotes teriam o tema ‘escravidão’ e os alunos seriam liberados no dia 13 de maio – data que marca a abolição da escravatura. Segundo parente de uma vítima, que teve a identidade preservada, por questão de segurança, as agressões eram comandadas por um estudante de 18 anos, que reside no local e era considerado pelos demais como uma espécie de responsável informal pelos quartos. Em depoimento à polícia, os outros dois adolescentes, de 15 e 16 anos, que também participaram dos trotes, afirmaram que eram obrigados a bater nas vítimas pelo jovem maior de idade. A Polícia Civil investiga o caso. As agressões eram gravadas pelos próprios estudantes e enviadas a alunos mais velhos. Nas imagens obtidas pela reportagem, um estudante aparece vestindo apenas uma peça de roupa íntima enquanto é espancado e assediado por outros jovens. Em outros registros, um aluno aparece afirmando “eu já sofri demais”. Segundo a denunciante, um dos jovens sofreu mais agressões do que os demais "por causa da cor da pele". 'Parecia um presídio' De acordo com familiares, alguns estudantes relataram que eram amarrados em postes e agredidos com cintos. Outra denúncia aponta que alunos eram obrigados a participar de brigas ou a humilhar colegas dentro dos dormitórios. Um estudante chegou em casa com marcas no peito após ter a região apertada com um alicate por colegas. Pais também relataram destruição de pertences pessoais. Em um dos casos, o material escolar de um aluno foi rasgado e um ventilador do quarto quebrado. Um responsável afirmou ainda ter encontrado pelos pubianos no travesseiro do filho. Familiares também disseram ter recebido relatos de que bebidas alcoólicas e drogas estariam escondidas no forro do alojamento. “Parecia um presídio”, afirmou uma pessoa que denunciou o caso, ao descrever o ambiente dentro do alojamento. Falta de supervisão Uma das principais críticas feitas pelos pais diz respeito à ausência de adultos responsáveis no alojamento. Segundo eles, os estudantes permaneciam sozinhos durante a noite. “São 28 adolescentes sem um responsável. Como isso acontece?”, questionou a parente que denunciou a situação. Os responsáveis afirmam que pagam uma taxa mensal de R\$ 160 para manter os filhos hospedados no local, já que muitos estudantes moram em outros municípios do Vale do Ribeira, no interior de São Paulo. Juramento de silêncio Segundo o boletim de ocorrência, os alunos haviam acabado de ingressar no primeiro ano do Ensino Médio e, logo no início das aulas, em fevereiro, foram obrigados a fazer um juramento de silêncio para não contar sobre os trotes. Após a promessa, os estudantes eram agredidos com chineladas nas mãos e, a partir daí, iniciava-se o trote. Conforme os jovens, nenhum funcionário do colégio estava ciente dos fatos devido ao pacto. Investigação O caso foi registrado na Delegacia de Iguape, onde pais e alunos prestaram depoimento. Os estudantes passaram por exame de corpo de delito. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou que o caso foi registrado nesta quarta-feira (11) como lesão corporal e vias de fato. Ainda conforme a secretaria, os envolvidos foram liberados após serem ouvidos. “Diligências estão em andamento visando o esclarecimento dos fatos e as responsabilizações necessárias”, afirmou a SSP-SP. Posicionamentos Segundo o Conselho Tutelar de Iguape, o órgão “atua garantindo as medidas de proteção aos adolescentes, acompanhando a situação, acionando os responsáveis e assegurando que os direitos deles sejam preservados”. Em nota publicada nas redes sociais, a Etec Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros informou que foi montado um comitê de crise para lidar com a situação e que, como primeira medida, afastou três alunos envolvidos. “Daremos continuidade ao processo de apuração detalhada dos fatos, para analisar todas as questões legais, no intuito de solucionar o caso e restabelecer a ordem no âmbito escolar”, diz a nota, assinada por Mauro Sérgio Adinolfi, superintendente de escola técnica. Já o Centro Paula Souza (CPS), responsável pela Etec, lamentou o ocorrido e informou que os três alunos acusados prestaram depoimento na Delegacia de Iguape e foram afastados “imediata e definitivamente. O diretor da unidade, Mauro Sérgio Adinolfi, vem tomando todas as providências para manter os estudantes em segurança e dar a eles o suporte necessário”. "O Centro Paula Souza (CPS) apura rigorosamente os fatos para aplicação das medidas legais cabíveis e coloca-se à disposição das autoridades para colaborar com as investigações. Os alunos envolvidos no caso seguirão com atividades remotas até que os trâmites legais sejam concluídos. O CPS repudia todo e qualquer ato de violência, dentro ou fora do ambiente escolar, e presta auxílio aos estudantes e suas famílias", acrescentou o Centro Paula Souza.