O momento em que a adolescente saiu de casa para conhecer o criminoso (no carro preto) (Reprodução) Uma adolescente com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de 14 anos, moradora de São Vicente, no litoral de São Paulo, foi estuprada por um homem que conheceu pela internet. O crime aconteceu em dezembro, no bairro do Marapé, em Santos. A Tribuna teve contato com a mãe da vítima, que clama por justiça e denuncia omissão do Município onde vive no tratamento com a jovem. (Veja em vídeo mais abaixo) Segundo a mulher, que terá a identidade preservada, o crime aconteceu no fim da noite do último 8 de dezembro. Por volta das 23h, enquanto ela tomava banho e seu outro filho dormia, a jovem saiu do apartamento onde vivem, no bairro do Catiapoã, e entrou em um carro preto. Imagens de câmeras de monitoramento registraram o momento em que a menina, descalça, vai até o veículo, que a leva embora na sequência. Para A Tribuna, a mãe da vítima contou que a menor passou a ter um chip instalado no celular cerca de um mês antes da data do crime, medida necessária para que ela pudesse se comunicar com o psicólogo que faz seu acompanhamento. Embora o uso do dispositivo fosse controlado, por vezes, a mulher revelou que teve de desinstalar determinados aplicativos, como redes sociais e plataformas de relacionamento. Tais programas eram baixados na tentativa de fazer amigos, visto que a menor enfrenta exclusão de colegas em função do transtorno que sofre. “A reclamação dela sempre é essa falta de amigos, é algo que o psicólogo sempre fala. Ela não consegue fazer amizades, então é muito carente nesse ponto. Ela busca fazer amizades de qualquer forma [...], mas não vê malícia”, destacou a mãe. Ainda segundo ela, por essa necessidade de amizades, a jovem costumava ser carinhosa com as pessoas, tendo o hábito, por exemplo, de abraçar. “Esse é o jeito dela, mas, agora, ela está ao contrário disso”, afirmou. Embora o uso do celular fosse controlado pela mãe, na ocasião, a menor havia baixado um aplicativo de relacionamento, por onde conheceu o agressor. Pelo aplicativo, ele conseguiu o contato de WhatsApp da adolescente e, em seguida, a convenceu a fornecer seu endereço. Naquela noite, ele se dirigiu ao local onde a vítima vive, estacionou o carro e, por mensagens, insistiu para que ela fosse até ele, dizendo que os dois sairiam para tomar um lanche. “Ela me disse: ‘mãe, ele falou para mim que, se eu não descesse, ele ia ficar chateado comigo, então fui para ele não ficar chateado’. Ela não vê maldade”, disse a mulher. O crime Conforme o boletim de ocorrência registrado na Delegacia de São Vicente, após entrar no carro, a menina foi atingida na cabeça ao tentar fazer carinho no agressor. Na sequência, ela foi levada para uma casa no bairro do Marapé, em Santos, onde foi violentada. Depois disso, ela foi levada até a Avenida Presidente Wilson, onde foi abandonada. Para a Reportagem, a mãe explicou que a menor conseguiu voltar para casa após pedir ajuda a um taxista, que a levou de volta. A mãe foi à delegacia acompanhada da filha para o registro do boletim e, em seguida, foram ao Pronto Socorro (PS) Central de São Vicente, onde a jovem foi atendida e medicada. -vídeo tt (1.447600) Omissão Na unidade de saúde, a mãe afirma que houve omissão. Isso porque, ao observar a ficha de atendimento ambulatorial da adolescente dias após o ocorrido, percebeu que ela não recebeu a medicação antirretroviral, que deve ser tomada em até 72h após o contato sexual para evitar uma infecção pelo vírus HIV. “Pedi tanto a Deus que, graças a Ele, ela não se infectou com nenhuma IST (Infecção Sexualmente Transmissível), mas é um absurdo errarem a medicação dela”, protestou. Com dores e sofrendo o trauma psíquico da violência, a adolescente chegou a ser internada na Santa Casa de Misericórdia de Santos, onde foi acompanhada por médicos de diferentes especialidades. “Fiz tudo pelo convênio, mas, como meu advogado disse, quem deveria estar comigo era a Prefeitura”, pontuou. Para A Tribuna, o advogado Leandro Santos, representante legal da vítima, questionou também o não encaminhamento da menor ao Conselho Tutelar. “O Conselho Tutelar deveria ser acionado, tendo em vista ser o órgão de proteção e garantidor de direitos de crianças e adolescentes. Diante disso, não houve encaminhamentos para especialidades que serão essenciais para o restabelecimento da saúde física e psíquica da vítima”, disse. Busca por justiça Agora, a família pede a investigação e resolução do caso enquanto enfrenta os traumas sofridos pela jovem. “Ela não dorme à noite, acorda gritando, fala que está machucando ela. Ao contrário de antes, ela também não deixa ninguém chegar perto”, descreveu a mãe da vítima. “Deus sabe de como eu sou com ela, falo que é minha ‘vidinha’. É muito sofrimento. Não tive Natal, Ano Novo, não tive nada, não tenho vida. Eu sobrevivo, não vivo mais. Ela é tudo para mim. Não tem como deixar (esse homem) impune”, desabafou. A Tribuna entrou em contato com a Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP-SP) que, em nota, informou que o caso está sendo investigado sob sigilo pela Polícia Civil de Santos, que realiza diligências para elucidar os fatos. O que diz a Prefeitura? Em nota, a Prefeitura de São Vicente afirmou que, no município, há um protocolo para atender mulheres vítimas de violência sexual. Elas podem procurar qualquer unidade de saúde pública da cidade e, a partir da necessidade delas, são encaminhadas para um dos serviços especializados da rede. Para quem procura o serviço até 72 horas ou no prazo de 5 dias, é feito o tratamento com antirretroviral para a prevenção da contaminação com HIV, e medicações contra IST e gravidez indesejada no Centro de Testagem e Acolhimento (CTA) Betinho . Sobre o caso trazido nesta reportagem, a Prefeitura disse que foi aberta uma sindicância interna para apurar todos os fatos relatados pela mãe da adolescente. “Ao saber do ocorrido a Secretaria de Saúde imediatamente solicitou a coleta dos depoimentos dos funcionários. Após a instauração do processo, será possível determinar o que de fato ocorreu”, informou, em nota. Em paralelo, a Administração Municipal afirmou estar dando toda a assistência necessária à vítima. A Prefeitura ressaltou que ela passou pelo Serviço de Assistência Especializada (SAE) e pelo CTA Betinho para a realização de exames e está recebendo os cuidados necessários. Ainda segundo o Município, a unidade acionou o Conselho Tutelar “como forma de resguardar a segurança e garantir todos os direitos da menor”.