[[legacy_image_226908]] Mais do que uma simples conexão com a internet, as ferramentas digitais e tecnológicas na educação são vistas como mola propulsora, inclusive, do desenvolvimento da Nação Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! No início da era digital, inserir a tecnologia no currículo escolar significava, praticamente, oferecer aulas de Informática. Hoje, ela já é vista como objeto do conhecimento, sendo considerada uma grande propulsora do processo de aprendizagem. O estudante deixa de ser um sujeito passivo e passa a ser colocado no centro. O resultado é o desenvolvimento de habilidades e competências, mas não se limita ao aprofundamento de técnicas. A tecnologia é capaz de mudar pensamentos, garantir a transformação social e unir, em vez de segregar. É uma verdadeira Revolução 4.0, porém ainda com deficiências e falta de capacitação. Passos já foram dados, mas há um longo caminho a ser trilhado. Esse é o panorama observado pela pedagoga e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Débora Garofalo. A docente, também formada em Letras, mostrou, na prática, o poder da tecnologia como mola propulsora de uma Nação. Idealizadora do trabalho de robótica com sucata, que se tornou política pública no Estado, ressignificou a educação na Emef Almirante Ary Parreiras, localizada entre quatro favelas na Capital, com alto índice de violência. Foram três anos e meio que transformaram crianças e jovens desinteressados na escola em estudantes com autoestima elevada, compreendendo que aquele lugar de extrema pobreza não precisava ser responsável por decidir os seu futuros. Mudando a realidade “Envolvemos os alunos desde o primeiro ano até o nono e tivemos resultados incríveis, como a redução da evasão escolar em 93%, o combate ao trabalho infantil em 95%, a mudança no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 4,2 para 5,2, além de retirarmos mais de uma tonelada de lixo das ruas de São Paulo. Quando começamos, os jovens olhavam a escola como uma extensão da casa deles e não como um local importante de aprendizado. Eu me permiti sair da zona de conforto para desenvolver esse projeto ao me tornar professora de Tecnologia”, explica Débora, autora de livros voltados ao cenário educacional no Brasil. Ela foi a primeira mulher brasileira e primeira sul-americana finalista no Global Teacher Prize, o Nobel da Educação, sendo uma das dez melhores professoras do mundo. Tudo começou em 2015. Até então, Débora atuava como professora de Língua Portuguesa. Porém, decidiu mudar o trajeto da sua carreira ao se deparar com o desafio de alterar os rumos das histórias dos alunos da instituição onde lecionava. Mal sabia que modificaria, na verdade, a vida de outros 3,8 milhões de estudantes em mais de 5.400 escolas. Sem experiência com tecnologia, conhecimento e, muito menos, recursos, ela fez do limão uma grande limonada. O primeiro passo foi a realização de avaliação diagnóstica com os alunos. As respostas revelaram que 70% encaravam o lixo como um problema, impedindo-os de irem à escola em dias de chuva, além de transmitir doenças para eles. “Eu não podia ficar indiferente e surgiu um insight de trabalhar com esses problemas trazidos pelos estudantes, ou seja, ressignificar esse lixo como fonte do processo de ensino e aprendizagem. A partir daí, nasce o projeto de robótica no intuito de trazer uma educação a partir de vivências e experiências, mas que também pudesse resolver um problema real, que era a questão do lixo na comunidade”, diz a gestora pública, lembrando da importância do trabalho prévio de sensibilização, mostrando aos estudantes que eles poderiam ser protagonistas das suas próprias histórias. NOVA VISÃO O projeto de Débora traz uma nova visão sobre o papel da tecnologia, ao permitir uma conexão, que vai além da internet, e alcança os pilares de desenvolvimento econômico e social. Não é apenas sobre a ampliação do uso dos meios digitais, sobretudo durante e após a pandemia, mas, sim, sobre revisar os conceitos a serem trabalhados, que incluem tecnologias digitais, informação e comunicação. Nesse contexto, fazem parte o letramento digital e o pensamento computacional. Porém, conforme aponta a docente, é preciso alinhar teoria e prática, reduzir as desigualdades de acesso – e isso também envolve a questão racial –, ou seja, diminuir as barreiras. Sem contar o investimento em qualificação dos professores. “Uma pesquisa feita pelo Centro de Inovação da Educação ouviu cerca de 10 mil professores de forma voluntária e numa escala, que vai desde a exposição do uso da tecnologia até a utilização da tecnologia como transformação, nós vimos que estamos muito aquém do que precisamos com o olhar da tecnologia. Isso significa que os nossos professores utilizam as tecnologias no dia a dia deles, mas ainda não sabem aplicá-la na sala de aula. A gente ainda está numa fase de aprendizado”. E essa preocupação se torna ainda mais latente diante de uma geração na qual o estudante não aprende mais de uma forma expositiva, menciona Débora. Ele aprende com essas tendências digitais, conectado a esse mundo digital, onde a escola tem um papel central de fazer com que os alunos não sejam apenas consumidores de tecnologia, mas, principalmente, produtores dela. Essa conclusão está, inclusive, totalmente alinhada às respostas geradas pela crise sanitária, que colocaram a tecnologia no centro das discussões. “Aprendemos o quanto a tecnologia pode contribuir para esse processo de aprendizagem. Aprendemos também que alguns requisitos são importantes para a gente reduzir a desigualdade social do nosso País e um deles é a questão do abismo digital que nós temos, com 71% dos nossos jovens da educação básica sem acesso à conectividade. Quando esse número chega dentro das escolas públicas brasileiras, ele atinge os 75%. Então, nós temos ainda muito o que alavancar compreendendo esse novo cenário”, finaliza.