[[legacy_image_300541]] Apesar de ser frequentemente associado a pessoas mais velhas, o Acidente Vascular Cerebral (AVC), conhecido como “derrame”, se tornou mais comum entre pessoas abaixo de 50 anos nas últimas décadas. A estatística é alvo de estudo pela medicina e tem muito a revelar sobre o estilo de vida dos jovens. O Ministério da Saúde aponta que, entre 1998 e 2007, houve um aumento de 64% nas internações por AVC (Acidente Vascular Cerebral) entre homens de 15 a 34 anos e de 41% entre mulheres da mesma faixa etária. O AVC ocorre quando vasos que levam sangue ao cérebro entopem ou se rompem. Diante disso, há uma paralisia da área cerebral que ficou sem circulação sanguínea, resultando em possíveis sequelas. Alguns casos são fatais. Existem dois principais tipos de AVCs, o hemorrágico – que gera um sangramento no cérebro devido ao rompimento de um vaso – e o isquêmico, em que a obstrução de uma artéria impede a passagem de oxigênio às células do cérebro. O segundo corresponde a 85% dos casos, sendo mais comum também em jovens. Fatores de riscoSegundo o Ministério da Saúde, alguns dos fatores que contribuem para a ocorrência do AVC não podem ser modificados, incluindo idade, constituição genética e sexo. Já outros dependem apenas da pessoa e são os principais visando à prevenção: não fumar, não consumir álcool, manter alimentação saudável e fazer exercícios. À Tribuna, o cardiologista Philipe Saccab, de Santos, explica que, em AVCs com origem cardiológica, a principal causa é uma arritmia chamada fibrilação atrial. Nesses casos, um coágulo se forma no coração e é enviado ao cérebro, causando a oclusão de um vaso no órgão. “A gente sabe que fatores como hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca, idade e doença vascular são fatores de risco. Mas estamos falando de uma população que não tem essas doenças. Então, o desafio agora é entender o que leva algumas pessoas que têm essa arritmia e não têm embolia, ou outras que têm a arritmia e a embolia, a ter o AVC”, afirma. Conforme o Saccab, os estudos não conseguem mostrar ao certo por que a arritmia cardíaca se tornou mais frequente em jovens nos últimos anos. Um fato conhecido é que pessoas obesas e com apneia do sono, por exemplo, estão mais sujeitas a desenvolver a condição e, consequentemente, ter o AVC. Avanços na medicinaO neurologista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) João Brainer reforça que o estilo de vida adotado pelo paciente tem uma forte influência. Ele explica que, durante muitos anos, a medicina teve a tendência de negligenciar os sintomas de AVC em pessoas mais jovens. Muitos pacientes eram sequer diagnosticados ou nem procuravam atendimento médico. Com o surgimento de ferramentas e exames com tecnologia avançada, identificar o AVC também ficou mais fácil. O aumento de fatores de risco, como uso de drogas ilícitas, consumo desenfreado de álcool e sedentarismo, também contribui para o cenário. Pesquisadores e médicos passaram a entender melhor como funcionam as doenças autoimunes e hematológicas, como as trombofilias. O conhecimento ajudou a aumentar a expectativa de vida das pessoas com uso de medicamentos e, é claro, exames preventivos. O médico ressalta que, em casos fatais, o paciente que teve o AVC tende a morrer pelas complicações clínicas, não pelo AVC em si. Como os mais jovens tendem a ter menos problemas no coração e em outros órgãos, também morrem menos. Covid-19 e emoçõesCom a pandemia de Covid-19, os números crescentes de AVCs entre mais jovens também tiveram um crescimento exponencial. “A Covid-19 promove um estado de hipercoagulabilidade que aumenta a formação de trombos no interior do corpo. Isso aumenta o risco de infarto em pacientes jovens, como também aumenta o risco de AVC. Não só o AVC isquêmico, mas também o AVC hemorrágico, especialmente a hemorragia subaracnóide”, explica o neurologista. O cardiologista Philipe Saccab acrescenta que a Covid-19 é uma doença infecciosa, o que aumenta o risco de inflamação no coração. Isso pode gerar miocardite, elevando o risco de AVCs. O raciocínio também se aplica a outras doenças que inflamam o órgão. Como em outras esferas da saúde, a forma como se lida com sentimentos é crucial para a incidência maior de AVCs. “Se a gente é uma pessoa muito rancorosa, raivosa, soltamos alguns hormônios na nossa corrente sanguínea que fazem os vasos reduzirem de calibre”, explica. É mais ou menos grave?Saccab explica que há uma janela de quatro horas e meia para dar o medicamento na veia do paciente que teve o AVC. Segundo o cardiologista, o que determina a gravidade das sequelas é o tempo que demora para ser atendido. No caso da formação de coágulos, quanto mais próximo do momento do AVC, mais fácil de dissolvê-lo totalmente. Outro fator determinante é a região do cérebro acometida. Quanto mais massa encefálica for afetada, maior o “problema”. E é claro que, nessa equação, a idade também faz diferença. “O AVC em jovens costuma ser maior que em pacientes mais velhos, porque na maioria das vezes acontece por doenças cardioembólicas, problemas no coração que geram pedaços de sangue grandes. Esses pedaços sobem e entopem vasos maiores no cérebro”, afirma Brainer. Por outro lado, pacientes mais jovens costumam ter uma recuperação muito melhor. Isso ocorre devido a um mecanismo que a medicina chama de “plasticidade neuronal”, ou seja, a capacidade que o neurônio tem de se readequar para compensar os problemas que sofreu. E então, como evitar um AVC? Fazer exames periodicamente, praticar atividades físicas, manter a pressão e a glicose sob controle são boas dicas. No dia a dia, beber bastante água e manter o peso ideal são outras práticas que ajudam a evitar a ocorrência.