[[legacy_image_18856]] Os EUA estão mais divididos internamente, a dívida nacional é maior, a desigualdade de renda é maior, o desemprego é maior e o respeito internacional cada vez menor. E, pela primeira vez, uma eminente crise constitucional, porque o presidente atual não sabe se cederá o poder se perder. Os EUA estão literalmente on fire. Independentemente do resultado das urnas, o estrago está feito. O tom bélico e pouco republicano da campanha presidencial demonstra o tamanho da fragmentação política experimentada no país, dividida entre pautas liberais e conservadoras, em um clima de animosidade sem paralelos recentes. Como uma Guerra Fria doméstica, Trump e Biden representam mais do que duas candidaturas: para os cidadãos dos Estados Unidos, é a própria definição de uma visão de mundo sobre outra, representando a derrota e medo daqueles que perderem acerca do futuro. Esse tipo de radicalização, que se inicia no campo político, e se alastra pelas redes sociais e manifestações de rua, produz um efeito perigoso que enfraquece as instituições e o próprio debate público. A dependência eleitoral de grupos sociais responsáveis por essa radicalização, em especial de Trump para com os movimentos supremacistas e negacionistas de todos os tipos, transformou o pleito em um espelho da tensão que consome a sociedade americana. Esse apoio é composto, em parte, por comunidades semelhantes àquelas que, no ano 2017, em Charlottesville, Estado de Virgínia, se levantaram em protesto gritando palavras de ordem como: “Vocês não vão nos substituir” – em referência a imigrantes – ou “Vidas Brancas Importam”, em contraposição ao movimento “Black Lives Matter” e aos “Antifas”, ou “antifascistas”, que declaram suporte à candidatura democrata. As fraturas sociais que levaram ao atual estado de coisas são profundas e anteriores à retórica explosiva dos dois candidatos. E não devem se encerrar com a divulgação dos resultados. A própria validade do pleito foi colocada em suspenso pelo presidente Trump, que busca questionar o sistema de voto pelos correios, alegando fraudes no seu uso e manipulação midiáticas e democrata para inviabilizar sua vitória. Reação ou não às pesquisas que se mostravam amplamente favoráveis ao seu adversário, o resultado dessa estratégia é um pleito que intensifica o cenário ao invés de criar instrumentos para a sua superação. Assim, caso Biden vença a eleição e assuma a presidência, terá a árdua tarefa de reunificar o país em novos termos, procurando reconstruir o pacto social que vem sendo demolido nas últimas décadas. A ausência de consensos nos campos do costume, do meio ambiente, na relação com a China e em relação à imigração ilegal, além das pautas ligadas ao movimento negro e das mulheres, dificulta um arranjo mais amplo. No entanto, esse objetivo deveria ser a grande prioridade para Biden, e o único meio para que a democracia dos Estados Unidos supere o cenário de aumento da violência política e acirramento da crise política. Por fim, as eleições americanas não devem resolver a encruzilhada política em que os Estados Unidos se encontram.