Nesta entrevista, Araquém Alcântara recorda momentos dos 50 anos de trajetória (Divulgação) Nascido em Florianópolis, quis o destino que fosse em Santos a descoberta da fotografia – e, por consequência, da sua vida. Aos 73 anos, 60 livros publicados, muitas fotos premiadas, Araquém Alcântara celebra os 50 anos em que trocou o desejo de ser escritor pelo de registrar a realidade em imagens, mas com toques de poesia dignos dos melhores nos livros. Araquém retorna a Santos, onde morou por 30 anos, na quarta-feira, para o vernissage da mostra que celebra a sua trajetória e para uma noite de autógrafos de dois de seus livros: Amazônia e Brasileiros. A mostra, com 58 imagens de Araquém, será aberta ao público na quinta-feira, na Pinacoteca Benedicto Calixto. Nesta entrevista, ele recorda momentos desses 50 anos, o encontro com a fotografia, inteligência articial na produção de imagens e de como o olhar humano é, e sempre será, fundamental. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Você é de Florianópolis. Como Santos entrou na sua vida? Meu pai era amigo de um santista que era marítimo como ele, trabalhava na casa de máquinas de um navio. Ele resolveu sair da Ilha de Santa Catarina para a Ilha de São Vicente. Viemos para Santos, morar no Macuco. Eu tinha seis anos. Meu pai previu que esse amigo casaria com a minha irmã (ele tem ainda outra irmã), o que aconteceu. Os dois já morreram, mas tenho dois sobrinhos desse casamento. Seu pai foi importante na sua formação? Foi fundamental. Quando eu tinha cinco anos, ele me levou para uma viagem de três meses pelo litoral do Brasil. Ao me maravilhar com aquela bola de sol e aqueles pássaros passando no meio, já estavam sendo lançada as bases de um poeta, de um contador de histórias. Depois fui ler Jack London, Jorge Amado, Joseph Conrad. Essas pessoas me deram a percepção do mar. E o filho, eu, veio para contar a história dos bichos, das florestas... E como a fotografia entrou na sua vida, já que você desejava ser escritor? O Maurice Légeard, grande ativista do cinema em Santos, uma figura histórica da Cidade, tinha essa sessão maldita, à meia-noite, era no Roxy antigo, ou no Iporanga. Um desses dias, entrei para ver uma sessão. Nunca tinha pegado uma máquina fotográfica. Era o filme A Ilha Nua, do (diretor japonês) Kaneto Shindo, sobre uma família que tentava cultivar uma ilha estéril. Tinha que ir buscar água todo dia. aquela coisa que não dava certo, mas a grandeza da persevarança, da determinação, da força do homem, e sobretudo a crueza leve com que isso era contado, me impressionou tanto, que eu tinha uma festa depois, com a hoje minha ex-mulher, mãe da minha única filha, e eu falei ‘não vou nessa festa. vou pra casa. vou pensar, tô um turbilhão de ideias’. Fui à praia, ali no Gonzaga, Na beira da água, algo me veio: ‘puxa, você pode muito bem dizer as coisas da maneira de Kaneto Shindo’. No dia seguinte, pedi emprestada uma máquina. Com dois colegas, fomos fotografar as prostitutas da Boca de Santos. A partir daí, não parei mais. Tinha 18 anos. Você é jornalista por formação. Quando percebeu que seria fotógrafo? Estava no Estadão (sucursal de Santos). Toda semana, o Jornal da Tarde abria em oito colunas a melhor foto da semana. Num determinado dia, foi a minha: a imagem de seis crianças abraçadas na lama de Cubatão. Comecei a me sentir fotógrafo, a entender que a fotografia estava tomando conta do meu texto, escrever estava ficando difícil para mim. Meu trabalho ganhou grande força em 1980, quando comecei a fotografar a luta contra a instalação de usinas nucleares em Iguape e Peruíbe, junto com meu grande amigo Ernesto Zwarg Júnior. Há alguma, ou algumas, fotos que mais lhe marcaram? Por que? Algumas, que não são muitas, ficaram indelevelmente marcadas. A primeira é uma em que o modelo foi meu pai e virou símbolo contra as usinas atômicas e correu o mundo, foi exposta na ONU. Essa fotografia foi construída, não é só a captura de um momento realista. Tive a ideia quando vi na sala de um deputado, em São Paulo, um quadro de fotos com vítimas insepultas da bomba de Hiroshima. Uma delas, tinha um trator levantando esqueletos. Pedi pra fazer uma reprodução da foto e tirei o trator. No asilo de São Vicente de Paulo comprei um quadro com moldura barroca, tirei a pintura e botei na moldura aquela imagem. Meu pai, em função do candomblé, não cortava cabelo, nem barba, ele tinha uma figura muito forte. Quando, depois de meses ele topou, pegamos um ônibus até Peruíbe. Lá, pegamos outro até o Guaraú, depois andamos 34 quilômetros, até chegar no Morro do Grajaú onde seria casa principal da usina nuclear. Foi a minha primeira grande imagem, ele segurando o quadro, como quem diz: ‘somos pessoas ignorantes, mas nós sabemos o que vcs querem trazer pra cá: a morte’. Me envolvi nessa luta, fiz até passeata na Avenida Paulista. E acabou sendo a primeira grande vitória da ecologia brasileira: ali, hoje, é a Estação Ecológica Jureia-Itatins. E a foto da primeira onça? Foi um ano depois. Estava em Manaus com um santista, o Francisco Lélis, para um trabalho. No segundo dia, na beira da piscina, ouvi um garçom falando pro outro: ‘e aquela onça? Continua aparecendo lá?’. Levantei, fui falar com o garçom e começou a conspiração: ‘amanhã, é minha folga. quer ir, ver se ela tá lá?’, ele perguntou. Pedi permissão ao Chico, a contragosto ele me deu um dia de folga e... nada de onça. Resolvi dormir lá, sabendo que ia tomar a maior bronca do Chico. No dia seguinte, tinha passado das 11 horas, encontramos um pescador: ‘ela tá aí’ (em um igarapé). Entrei, vi aquela cabeça enorme dentro d’água, tranquila. Fotografei ela brincando com um galho. Mas o que dá a impressão na foto? Que se está numa enchente e ela está se segurando no galho. Essa foto foi transformadora? Eu já era outra pessoa: um caçador de belezas. Não imaginava a repercussão da foto de meu pai, percebi a força da imagem. Essa foi uma confirmação mística: ‘você vai fotografar muito isso aí, bichos, floresta, gente’. Senti que o novo estava comigo, e o novo continua na mata virgem, senão não haverá futuro, nem para o Brasil, nem ao mundo. O que é a fotografia? Um extrato, uma representação ou uma recriação da realidade? Ela tem uma gama impressionante de possibilidades. Me considero um fotógrafo documental, mas não de forma rígida: eu posso construir imagens, criando um cenário. Henri Cartier-Bresson não gostava que mexesse em nada do que ele tinha visto, nem no corte. Olha a definição dele de fotografia: ‘fotografar é, numa fração infinitesimal do tempo, captar uma unidade rigorosa de formas, colocando na mesma linha de mira, instantaneamente, a mente, a visão e o coração’. A fotografia é sempre uma interpretação da realidade, mas ela sempre será um certificado de presença, um arquivo da memória. Mas o que existe por trás de tudo é a ética. Como fica a fotografia em tempos de fake news e inteligência artificial? Um fotógrafo inglês ganhou um concurso, que não falava em inteligência artificial. Ele devolveu o prêmio, dizendo: ‘essa é uma grande questão ética que eu coloco para vocês. essa foto não fui que fiz’. Se quiser usar a IA, coloca no concurso com regras, aí tudo bem: porque a ética entra nisso tudo. Certa vez, passei no Centro de santos, vi o balé da Cidade ensaiando na Casa da Frontaria Azulejada. Eu estava no momento ali, fiz uma foto completamente surrealista, mas ela era real. Só pedi à bailarina para dar um salto na frente de uma porta aberta. O que eu faço? Fotos documentando a realidade, que parecem irreais. Mas só parecem: minha missão é registrar os bichos, a natureza, a paisagem e os seres humanos. Com o celular, todo mundo é fotógrafo. O que você acha disso? Hoje, todos são fotógrafos, mas existe uma outra fotografia, imorredoura: a fotografia de arte, mas como testemunha de um tempo. Nunca, nenhuma inteligência artificial, nem toda a banalização, vai prescindir do olhar.