Textos são contos que transitam entre reflexão, superação e amor (Divulgação) A escritora negra e deficiente visual Graziela Santos lança no sábado seu primeiro livro, Graziela Entrelinhas, em um evento que promete emocionar o público na Estação da Cidadania de Santos. A programação vai das 15h às 19h e inclui música, poesia, dança e um coquetel aberto aos convidados. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mais do que uma estreia literária, o lançamento representa a realização de um sonho antigo. “Quando a gente é criança, tem quem queira ser médico, bombeiro ou policial. Eu só queria ser escritora”, conta Graziela. O desejo, que nasceu ainda na infância, ganhou força ao longo dos anos — e resistiu às dificuldades, inclusive à perda da visão em meio à pandemia, causada por uma retinopatia diabética. “Quando você passa a vida inteira enxergando e depois perde a visão, é como aprender tudo de novo. Lavar uma louça, andar, escrever… até ler um livro, que sempre foi uma das minhas maiores paixões”, relembra. O amor pelas palavras, porém, nunca se apagou. Foi com incentivo do amigo Gilberto Ferreira, também deficiente visual, que Graziela voltou a escrever. “Ele achou um texto meu nas redes sociais, transformou em vídeo acessível e me mostrou. Eu fiquei em choque. Pensei: ‘o que a gente não pode fazer?’” A partir daí, a escrita voltou a ocupar seu lugar. Com apoio do amigo e da editora Cíntia Panta, do Ateliê do Universo e Edições, Graziela reuniu textos que já havia publicado em suas redes e outros inéditos. O resultado é um livro sensível e intenso, com contos que transitam entre a reflexão, a superação, o autoconhecimento e o amor. “Meu livro é íntimo. Tem essência, tem memória, tem história, tem vida. Eu escrevi por amor, e quero que esse amor seja sentido em cada página”, resume. E completa: “Hoje em dia é tudo tão automático, tudo tão rápido. Sinto que as pessoas estão deixando de viver. É tudo isso que traz meus textos. Eu falo de hemodiálise porque faço hemodiálise. Falo de saudade, falo sobre a deficiência visual. Falo sobre pessoas que passam pela minha vida.” O processo de publicação também foi fruto de esforço coletivo: uma vaquinha on-line viabilizou a primeira tiragem, de 100 exemplares. A capa e os marcadores foram criados pela ilustradora Márcia Okida, e o lançamento será um evento acessível, com leitura de poemas, performance das bailarinas Adriana Barbieri e Tatiana Justel e apresentação do grupo musical de alunos do Lar das Moças Cegas, instituição onde Graziela retomou sua autonomia. Entre lembranças e conquistas, ela dedica o livro ao pai, seu maior incentivador. “Ele sempre dizia: ‘você tem o dom das palavras, não guarde isso só pra você’. Hoje eu sei que ele tinha razão.” Incentido de amgo fez a diferença Graziela Santos retomou a escrita com o apoio do amigo Gilberto Ferreira, também deficiente visual, que tem um canal no YouTube (@palavrasimagensesons). “Um incentiva o outro”, conta Graziela. Depois que ele conheceu os textos dela, a parceria se fortaleceu: Graziela edita os textos enquanto Gilberto digita e adapta para o canal, criando conteúdos acessíveis com audiodescrição e voz sintetizada. “A gente passava horas no telefone, revisando, lendo e relendo. Foi assim que meus textos começaram a ganhar vida fora das minhas redes sociais.”