Joaquin Phoenix e Lady Gaga em "Coringa: Delírio a dois" (Reprodução) 'Coringa: Delírio a dois' (Joker: Folie à Deux), escrito e dirigido por Todd Philips, é um ensaio sobre a dor e a loucura ao som de clássicos da música americana e francesa. A sequência de Coringa (2019) é um drama que desce às sombras mais densas da alma de um atormentado, com um roteiro bem construído em prosa, que agrega momentos de musical, arrematado com elementos que enriquecem qualquer trama: um caso de amor e um julgamento. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pode ler, não tem spoiler O longa-metragem é sombrio como deve ser uma produção da DC Comics, ainda que não se prenda às origens dos quadrinhos, mas com um compromisso de nos fazer mergulhar na mente tortuosa e trevosa do protagonista. Joaquin Phoenix atua como nunca para além do arquétipo de um psicopata violento. Mas, Arthur Fleck é isso mesmo? Phoenix, que ganhou o Oscar de Melhor Ator por sua atuação em 'Coringa', em 2020, dá uma generosa demão de tinta no palhaço perturbado, mergulhando fundo na psiquê de alguém que sofreu e sofre abusos severos, sendo constantemente agredido e humilhado verbal e sexualmente. Nesta sequência, a advogada de Fleck, Maryanne Stewart, interpretada pela atriz Catherine Keener, é o 'eu' fictício do diretor Todd Philips que, assim como Phoenix, defende Arthur Fleck incondicionalmente. Já o funcionário do hospital psiquiátrico Arkhan, Jackie Sullivan, brilhantemente elaborado pelo ator irlandês Brendan Gleeson, é o típico carrasco que tortura e violenta Fleck às raias da loucura. Porém, é dentro dessa mesma instituição que Fleck encontra alento para a sua vida desgraçada ao conhecer Harleen Quinzel, a Lee, interpretada por Lady Gaga. Eles passam a viver uma paixão que se desenrola entre o delírio e a realidade, com uma trilha sonora preciosa de clássicos americanos, números de dança e cenários que são um tributo imensurável à era de ouro dos grandes musicais de Hollywood, mas também à Fred Astaire, ao Jazz e ao Foxtrot. É um luxo! Gaga dá brilho e encanto à pesada ambientação da trama, atua bem, mas não é uma performance extraordinária. A atuação linear de Gaga tem um propósito estratégico, a sua personagem é uma 'escada', um indicativo da humanidade de Fleck ao vivenciar uma paixão. Há dois momentos antológicos no filme, quando Phoenix canta 'For once in my life', de Frank Sinatra, e 'Ne me quitte pas' (Não me deixe, em tradução livre). As músicas são o encaixe perfeito no contexto de cada cena que ilustra duas situações cruciais na vida do protagonista. O amor é tudo o que ele tem. Não é à toa que o título original do filme começa em inglês e termina em francês: “Joker: Folie à Deux”. Até nisso, Phillips é genial, tendo com co-roteirista Scott Silver. Sem dúvida, 'Coringa: Delírio a Dois' é um dos melhores lançamentos do ano e deve repetir o feito de 'Coringa' (2019), indicado a 11 Oscars e vencedor em duas categorias em 2020: Melhor Ator, para Phoenix, e Melhor Trilha Sonora. Arrisco dizer que 'Coringa: Delírio a Dois' tem boas chances de ser indicado nas categorias de filme, direção, roteiro, ator (Joaquin Phoenix), ator coadjuvante (Brendan Gleeson), trilha sonora, cabelo e maquiagem, figurino, edição, som, fotografia e direção de arte. Vá ao cinema e mergulhe nessa folia sombria e apaixonante você também! *Bárbara Farias é jornalista e comentarista de cinema. Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna. As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.