A palavra catrevagem pode ser compreendida como um conjunto de objetos sem valor. É aquela ripa de madeira guardada, o botão que caiu da camisa, o martelo velho do qual não se abre mão, porque um dia alguém pode precisar. Em seu livro Catrevagem, Marina Gonzalez ensina como ressignificar esses objetos, atribuindo um valor objetivo às coisas aparentemente inúteis – e, de quebra, estimular a criatividade. A autora e produtora de livros de arte descobriu a expressão ‘catevragem’ em um encontro que teve com o escritor pernambucano Diógenes Moura. Ao se deparar com uma moldura toda enfeitada por ela (presente na última página do livro), reagiu: “isso que você faz é catrevagem!”. Marina achou a palavra muito engraçada. “Muito parecida com esse pitoresco da cultura brasileira”. Sentiu-se inspirada para falar “como a gente pode transformar um monte de lixo, de treco, de cacareco, de coisa que a gente não usa para nada em algo útil e bonito”. Porém, para além de reutilizar e reciclar, percebeu a possível função terapêutica nessa construção, ao conhecer a arteterapeuta Bianca Solléro, que explicou sobre o bem-estar observado nos pacientes em trabalhos artísticos. “É um momento que ele está com ele mesmo. É um momento que ele não se sente julgado ou pressionado”. Também é um momento de refletir sobre o acumulo de coisas. Garimpar lá dentro de si e julgar o que serve ou não. Símbolo de afeto Foi com esse monte de ideias que Marina esboçou o seu Catrevagem. “(O livro) combinou um monte de coisas: a palavra, que tinha a ver com esse meu trabalho de mexer em cacareco, essa viagem da cultura brasileira e, por fim, a criatividade como fonte de bem-estar e saúde mental”. Em Catrevagem, a autora prova que as supostas ‘porcarias’ acumuladas no lar de alguém podem se transformar em símbolos de afeto. O trabalho é transformar “um afeto, um apreço, uma memória que você tem com alguém que foi especial na sua vida, em um objeto”. Como exemplo, Marina deixou impresso em seu livro todo o carinho que carrega pela família: o ‘R’ no título Catrevagem é feito na forma de pecinhas de costura, linha, carretel, tesourinha. “Porque minha avó foi costureira. Ele é uma homenagem à minha vó. O ‘E’ é cheio de botões. Esses botões foram deixados pela minha avó”. Assim, catrevagem é o caminho de recuperar o objeto velho, não só para um outro prático, mas sobretudo para reavivar na memória um afeto do passado. “Acho que tá faltando a gente saber que tudo tem um valor. A gente pode transformar, a gente pode doar, pode reciclar, pode jogar fora, mas, às vezes, a gente tem que dar valor a um botão que tua vó te deixou e honrar a presença dela na sua vida”.