(Reprodução/ Instagram) “Valeu a pena toda pedrada que eu recebi porque hoje eu vejo um monte de mulheres e de pessoas se libertando de rótulos”. Foi em 2022, meses antes de descobrir um câncer, que Preta Gil disse essa frase em entrevista a um portal feminino. Não era fã da artista, não acompanhava muito a carreira dela. Mas sabia que cantava muito bem, arrastava multidões em seu bloco de Carnaval e que era uma figura singular, daquelas disruptivas, que mexem com conservadorismos, estereótipos e imposições sociais. Por isso, gostava de ler entrevistas com ela vez por outra, uma mulher que não pedia licença para existir - e deixando de existir na matéria fará falta nesse Brasil tão cheio de máscaras e gente distorcendo a realidade para obter vantagem diante dos erros e gravidades que comete. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Autenticidade é uma boa palavra para defini-la. Como ela mesma se identificava, uma mulher preta, gorda, bissexual e livre, bem do jeito que a sociedade não quer. Desafiando os padrões de beleza e de comportamento com sorriso largo, gargalhadas, presença marcante, pensamento transparente e muitos amigos. Uma estrela que tinha brilho de verdade, em tempos que tantos buscam os 15 segundos instagramáveis de fama sem nem ter muito (ou nada) para acrescentar. E aconteceu com Preta o que acontece com milhares de mulheres em tratamento oncológico: foi deixada pelo parceiro (não sei nem se dá para usar essa palavra). No caso da artista, um marido com quem era casada há nove anos e a traiu enquanto ela fazia cirurgias e quimioterapias. Toda história tem dois lados. Mas considerando que 70% das mulheres são abandonadas por namorados, maridos e companheiros quando enfrentam um câncer, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Mastologia, é sobre machismo - algo que Preta também fazia questão de combater. Reagiu a tamanho desafio e dor emocional, que se somou ao que já vivia, sendo ela mesma. Deixou claro que não queria perder mais tempo com o que não lhe fazia bem. Lembrava que a vida é agora e aproveitou essa vida até o final cercada de quem a amava, conversando abertamente com o público sobre a doença e a importância do diagnóstico precoce. Claro, quebrando tabus ao surgir com a bolsa de colostomia enquanto nadava na piscina e dava um mergulho no mar baiano de Salvador. “Quando a morte bate na sua porta, você aprende quem realmente te ama. Meu corpo foi cortado, minha alma foi rasgada. Mas meu espírito ficou inteiro”, disse em outra entrevista. Um espírito de alegria. Alegria essa que é resistência, como nos ensinou o filósofo francês Gilles Deleuze. Que é também, como afirmou o filósofo holândes Spinoza: a alegria é uma força vital, que aumenta a potência de agir e, assim, de transformar. Tão Preta Gil. P.S.: Que coisa linda ouvir Drão, música que Preta cantava com o pai, Gilberto Gil, e emocionou o público quando entoaram a canção juntos pela última vez no show da turnê de Gil em abril, em São Paulo. Os dois se emocionaram demais no que já se anunciava despedida. Diz a letra, “não pense na separação, não despedace o coração, o verdadeiro amor estende-se ao infinito”.