Luis Lobianco está em tudo — e em todos os lugares (Leo Aversa/Divulgação) Luis Lobianco está em tudo — e em todos os lugares. No remake de Vale Tudo, ele vive o ambicioso Freitas, que aceita humilhações em troca de status, ao lado da temida família Roitman. Um papel denso, crítico, desconfortável — e, ainda assim, humano. Ao mesmo tempo, Lobianco surge nas telas do Prime Video como o encantador Nhô Lau, dono da goiabeira mais desejada por Chico Bento. Com uma trajetória que atravessa o teatro, a comédia, o drama e a luta por representatividade, Lobianco fala sobre sua entrega ao ofício, o humor como ferramenta política e o Brasil profundo que ainda quer contar. No remake de Vale Tudo, seu personagem Freitas enfrenta situações de humilhação e assédio em troca de status. Como foi mergulhar nesse dilema moral e o como tem sido dar vida a esse personagem? Fiz a seguinte pergunta ao meu personagem: vale a pena ser honesto no Brasil? Ele me respondeu que não. Esse é o ponto de partida, somos bastante diferentes e isso me atrai. Personagens com lógica oposta à minha oferecem mais espaço para colorir. É aí que está o prazer da profissão. Quanto mais avesso, mais se brinca de criar. Você já declarou em entrevistas que busca papéis que provoquem reflexão social. Em Freitas, isso vem com uma carga forte. Como você enxerga o papel do humor — mesmo que sutil — dentro desse personagem e dessa trama? Eu gosto de personagens populares, familiares a quem assiste. E acredito no humor como ferramenta de aproximação. Quando uma pessoa ri, ela se abre para que você fale de coisas importantes e sérias. Mas é preciso ser responsável. Tem muito humor inconsequente e inconsistente por aí. O Nhô Lau de Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa é quase o oposto do Freitas: leve, lúdico e cheio de brasilidade. Como foi equilibrar esses universos tão distintos no mesmo momento da carreira? É exatamente o que me atrai, o contraste. Estar no cinema na pele de um homem do campo, de palavra íntegra. E na TV como um executivo de postura questionável. Como ator, é a melhor maneira de evitar rótulos. De quebra, são dois projetos que constituem a memória afetiva dos brasileiros. Sinto-me honrado pela tarefa que é sinal de credibilidade no que faço. Você participou de produções que foram fenômenos de público e crítica, como Os Outros e Vai na Fé. Como é a relação com o público e como você resume o sentimento de um trabalho reconhecido? Gravei a série assim que terminamos a novela. O personagem era completamente diferente do meu Vitinho de Vai na Fé. É preciso entender que cada projeto tem seu propósito de alcance e, nesse sentido, cada produto teve êxito com seu público. O reconhecimento por quem assiste é mais uma etapa deliciosa da minha profissão, depois do estudo e da gravação. Viver dessa forma é o meu ambiente, nos ciclos que o teatro, a TV e o cinema proporcionam, suas dificuldades e glórias. Você tem uma trajetória marcante no teatro e na comédia. Como esse repertório molda suas escolhas no audiovisual hoje? O teatro foi um renascimento na minha vida. Aos 6 anos, morreu a minha mãe e aos 11 eu pisei pela primeira vez num palco. Imediatamente, entendi que era onde eu ia me reconstruir. Fui fazendo todo tipo de teatro, mas foi já formado que nos grupos de comédia tive acolhimento. Quando o mercado me enxergou, eu estava sobrevivendo no riso. Jamais renegaria o humor porque é algo que me constitui, inclusive para atuar no drama. Mas acho estranho ser chamado de humorista porque exclui todas as minhas outras experiências de criação, inclusive por ter tido uma vida também trágica. A família Roitman representa o poder e os bastidores da elite empresarial no Brasil. Como foi trabalhar essa camada crítica em um personagem que está justamente nos bastidores desse sistema? Gosto de pensar nos Roitman como a família real de agora, encastelada num ponto alto do Rio. O Freitas é um daqueles plebeus que tentam acessar o castelo por algum buraco, ávido por um título de nobreza qualquer que garanta algum tipo de privilégio a ele. Sou carioca e esse ranço colonial ainda existe em toda parte, nas elites empresariais, intelectuais, políticas e todo tipo de fidalguia. E onde há elite, há os bajuladores. (Leo Aversa/Divulgação) Em entrevistas anteriores, você fala sobre a importância da representatividade e da pluralidade nas telas. Como tem sido observar a evolução (ou não) desse cenário nos projetos que você integra? Acho que minha presença na tela há 13 anos já é resultado desse processo. Antes disso, eu já fazia teatro há 19 anos e não havia qualquer oportunidade de fazer um teste. Quando fui chamado para atuar num projeto na internet, território bastante desconhecido naquela época, já significava resistir a partir da nossa inadequação. O que éramos, fazíamos e pensávamos chamou atenção e o mercado se adequou para absorver artistas como nós. O que acho é que o movimento de expansão dos padrões vai sempre acontecer fora do mainstream para depois ser incorporado. Quem tem a caneta não quer arriscar não lucrar. Quem não tem nada a perder é que vai romper com o previsível e fazer a mudança. Entre a goiabeira do Nhô Lau, os corredores corporativos da TCA e os conflitos de condomínio em Os Outros, você transita por diferentes Brasis. Qual Brasil você ainda quer contar e interpretar? Tenho parentes em Sergipe, Tocantins, Minas e na minha infância todo ano eu viajava de carro com meus pais e irmãs para esses lugares. Eram vários dias de jornada e isso me criou memórias e um repertório imenso de Brasil. Gostaria de contar essas experiências e ainda não sei como seria. Mas uma história brasileira que acontece na estrada me fascina.