Alessandra Maestrini e Mirna Rubim estão excelentes como protagonistas dessa história (Priscila Prade/Divulgação) Recheada de árias de óperas, doçura e de pessoas que não existem no mundo real, O Som e a Sílaba, minissérie em cartaz no streaming Disney+, é uma opção delicadamente melancólica inspirada em um espetáculo teatral de Miguel Falabella. Uma descoberta bem diferente entre as opções nacionais no streaming e que parece, até, ser ambientada em uma utopia na qual a educação plena e de qualidade chegou a todos. Bem interessante e até surpreendente sob todos os aspectos. A história fala sobre perdas, encontros, desencontros em especial superação e inclusão. A protagonista é Sarah Leighton, uma jovem diagnosticada com o transtorno do espectro autista que tem uma habilidade extraordinária para o canto e se interessa pelo canto lírico. Após perder os pais, ela vai morar com John, o irmão compreensivo, e sua esposa nem tanto. Entre seu desejo de autonomia, consciência das próprias particularidades e o amor mais do que protetor do irmão, Sarah busca independência, autonomia e também a realização de seus sonhos, que vão muito além da ópera e passam por um namorado... É por meio do irmão que ela conhece pessoalmente um de seus ídolos, a cantora Leonor Delise, que a contragosto a aceita como aluna e que também está em um momento complicado de sua vida, enfrentando seus próprios desafios. A dinâmica deste relacionamento vai mexer com a vida de ambas de forma definitiva. Ao mesmo tempo que acompanhamos a história da protagonista, também ficamos sabendo dos detalhes da vida dos coadjuvantes que, um a um, têm seus momentos de destaque na história: o porteiro violinista que se apaixona pela secretária de Leonor, o rapaz com autismo, filho de duas mulheres, que se torna o namorado de Sarah, a filha de Leonor, que mora fora do Brasil e tem um passado bastante difícil a ser superado em relação à mãe... A delicadeza com que as questões são mostradas e discutidas me levou, em alguns momentos, às lágrimas (mas não confie nesta informação, pois sou, como dizia minha mãe, uma manteiga derretida). É tudo muito bonitinho, otimista e até ingênuo, quase o reflexo da visão de mundo da própria Sarah. Não dá para encerrar qualquer comentário sobre esta produção sem falar da música, que é o fio condutor que une todas as histórias e personagens. Ela é hiperpresente e reflete tanto a leveza de algumas situações quanto o peso e a tensão de outros momentos. A história, aliás, alterna fúria e calmaria, ódio e doçura. Além de uma produção extremamente cuidadosa e caprichada, com ótimos figurinos e boa direção de arte, a série conta também com um elenco sensacional, a começar pelas duas protagonistas, que também estrelaram a versão teatral da história: Alessandra Maestrini e Mirna Rubim, excelentes. Também no elenco estão Miá Mello, Juliana Didone, Maria Maya, Maria Padilha, Guilherme Magon. Os roteiros são de Miguel Falabella e Rosana Hermann e a direção é do próprio Falabella com Cininha de Paula. A primeira temporada tem oito episódios, com cerca de 35 minutos cada. Gostei bastante de cada um e fiquei na torcida para que uma segunda temporada seja feita, mesmo que a história, contada como foi, tenha começo, meio e fim. Não é sempre que se encontra, dentro da produção nacional, algo com este nível de delicadeza e sensibilidade.