Outro dia, na fila do mercado, uma senhora se irritou porque o caixa não entendia direito sua explicação. A voz subiu, a palavra virou lâmina, o silêncio constrangido se espalhou pelo corredor. Ninguém apanhou, não houve sangue, mas ficou no ar uma ferida: o gesto banal, quase invisível, de violência cotidiana. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É nesse terreno aparentemente inofensivo que germina algo maior. Não começamos uma guerra de repente; ela é antecipada nos pequenos gestos, nas respostas atravessadas, na impaciência contra o outro, no desejo de que a vida se curve ao nosso passo. Ailton Krenak costuma lembrar que esquecemos de sonhar coletivamente. Ao perdermos esse sonho comum, cada um se fecha em sua bolha, pronto a reagir como se o vizinho fosse inimigo. A violência, então, vai se normalizando como linguagem, como forma de estar no mundo. Drummond escreveu que havia uma pedra no meio do caminho. Talvez essa pedra seja também o rancor que carregamos, o impulso de gritar, de humilhar, de negar humanidade ao outro. Não são apenas grandes tragédias que nos ferem: são os espinhos repetidos, a grosseria diária que corrói a esperança. Cada pedra que aceitamos no caminho da convivência abre espaço para muros mais altos, armas mais afiadas, fronteiras mais rígidas. Ferreira Gullar dizia que a poesia nasce do espanto. Talvez devêssemos nos espantar mais com aquilo que naturalizamos. Uma buzina impaciente, uma mensagem agressiva na internet, uma porta batida na cara: gestos que parecem mínimos, mas que alimentam o rio subterrâneo do ódio. Quando percebemos, já não distinguimos onde termina o incômodo e onde começa a violência. O curioso é que essas pequenas fissuras vão moldando não só o presente, mas também o futuro. Crianças crescem assistindo ao adulto que responde com ironia, ao motorista que fecha o outro no trânsito, ao político que transforma adversário em inimigo. Aprendem, sem aula formal, que a vida é disputa permanente, que só resta vencer ou ser esmagado. Esse aprendizado silencioso talvez seja a mais perigosa das violências: a de acreditar que não existe alternativa. No entanto, se é verdade que pequenas violências se acumulam, talvez pequenos cuidados também se multipliquem. Um cumprimento na rua, um silêncio paciente, uma escuta sincera podem interromper a cadeia. Krenak nos convida a lembrar que não estamos sós, que habitamos uma mesma casa chamada Terra. Se a tratamos como tratamos uns aos outros, com descaso, indiferença, agressividade, o planeta responde. Quando olho para os gestos apressados que nos atravessam, penso que a vida nos pede outra cadência. Menos buzina, mais espera. Menos palavra como faca, mais palavra como ponte. A violência não é destino: é escolha cotidiana. Assim como o cuidado. E talvez seja essa a maior lição: reconhecer que, na mesma medida em que colaboramos para o endurecimento do mundo, também podemos oferecer brechas para sua suavidade. Cada gesto contém um futuro. Cada escolha, por menor que pareça, carrega a potência de abrir ou fechar caminhos. Se a violência se espalha como contágio, também a ternura pode ser epidemia. É nisso que insisto em acreditar: que ainda há espaço para sonhar juntos, para reinventar o cotidiano com menos pedras e mais flores, com menos muros e mais pontes. *Alessando José Padin Ferreira é escritor, professor universitário e jornalista.