Gilberto Freyre, no livro Sobrados e Mucambos, revela de forma vívida como o passado – especialmente as desigualdades históricas – continua a impactar o presente de uma maneira complexa e profunda (Reprodução) A história, muitas vezes, é vista como um emaranhado de eventos, distante da nossa realidade cotidiana. No entanto, o passado não é algo morto ou distante, mas sim uma força viva que molda quem somos e como enxergamos o mundo. Para construir um futuro mais justo e mais humano, é essencial conhecermos a nossa trajetória, compreendermos as feridas que ainda estão abertas e alimentarmos a memória do que fomos, para que possamos seguir adiante com mais clareza e empatia. Gilberto Freyre, no livro Sobrados e Mucambos, revela de forma vívida como o passado – especialmente as desigualdades históricas – continua a impactar o presente de uma maneira complexa e profunda. Ele descreve o contraste entre a vida dos negros nas senzalas e os moradores das casas de sobrado nas cidades, oferecendo uma imagem nítida das duras condições a que os escravizados eram submetidos: “Quanto a esses negros das senzalas, as evidências, ou pelo menos os indícios, são de que, como nos engenhos e fazendas, eles foram beneficiados por uma alimentação mais regular e por um passadio mais fano que o da gente livre dos cortiços, dos mucambos e das casas térreas das cidades”. Este trecho mostra como a segregação social, marcada pela escravidão, criava uma disparidade não apenas nas condições de trabalho, mas também nas condições de vida dos negros, mesmo entre os que viviam em situações de opressão. A memória dessas condições não deve ser enterrada, mas sim resgatada e refletida, porque revela uma das grandes raízes das desigualdades que ainda vemos no País. O Brasil atual não pode esquecer da herança escravocrata que o formou. O País ainda carrega, em suas estruturas sociais e econômicas, resquícios da exploração e do racismo institucional que marcaram os séculos de escravidão. A pobreza, a violência e a marginalização das populações negras e periféricas são consequências diretas dessa história não resolvida. E, por mais que tentemos ignorá-la ou deixá-la de lado, ela se reflete no comportamento e nas relações de nossa sociedade. Freyre não apenas descreve uma realidade de opressão, mas também faz uma crítica ao sistema de exploração desenfreada do trabalho. O exemplo que ele dá das fazendas de café, onde os escravizados eram tratados de forma brutal, é um reflexo da lógica capitalista que priorizava o lucro sobre a dignidade humana. Ele cita que os negros, mesmo após jornadas de trabalho extenuantes, eram alimentados com uma “comida rala”, composta basicamente de feijão com angu e pouco mais. Isso tudo enquanto trabalhavam desde as primeiras horas da madrugada, com pouco descanso, e em condições físicas e emocionais de desgaste extremo. O trabalho excessivo, a alimentação insuficiente e os castigos constantes os transformavam em “máquinas de fazer dinheiro”. Esse quadro não era único das fazendas de café, mas refletia uma realidade generalizada de exploração. E esse sistema cruel não só devastava o corpo dos negros, mas também a sua humanidade. De acordo com Freyre, esse “regime de trabalho escravo” criava seres humanos sem “laço algum de amizade que os ligue sobre a terra”, o que não apenas desumanizava os escravizados, mas também afetava a sociedade como um todo, promovendo a desintegração de elos afetivos e sociais. O preço dessa desumanização foi cobrado pela história, e se não tivermos coragem de olhar para ela, corremos o risco de repetir os mesmos erros. Alessando José Padin Ferreira é escritor, professor universitário e jornalista