Atualmente, uma das facetas mais intrigantes das IAs é a capacidade de fazerem algo para as quais não foram ensinadas (Adobe Stock) O pesquisador e professor Wanja Wiese, do Instituto de Filosofia, da Universidade Ruhr Bochum, na Alemanha, tem uma tarefa incomum. Seu trabalho é reduzir o risco de que venhamos a criar uma inteligência artificial (IA) com consciência. Hoje, para a maioria dos pesquisadores que estuda a IA, isso não existe e talvez nunca venha a existir. Talvez, um lampejo, arriscam dizer os desenvolvedores. Curiosamente, boa parte dos humanos, que cada vez mais interagem com IAs, acredita que elas têm consciência. É o que diz uma pesquisa recente, da Universidade de Waterloo, no Canadá. A constatação gerou até uma piada: a filha pergunta ao pai por que ele fala tão baixinho em casa. O pai responde: “porque a inteligência artificial está ouvindo”. A filha ri, o pai ri. E a Alexa ri. Você está rindo? Então pense em um futuro, que já está batendo às portas, em que a capacidade de interação será tal a ponto de despertar toda sorte de sentimentos para com carros ou eletrodomésticos. Estaremos pedindo desculpas à geladeira ou nos sentindo enamorados pelo aspirador de pó ou por simpáticos vasos sanitários. Com certeza, tais ocorrências serão menos mérito da IA do que fruto de um comportamento humano sequioso por atenção, mas, mesmo assim, estaremos nos relacionando e elas, aprendendo. A questão, aqui, é que parte do que se passa nas entranhas desses algoritmos ainda não é bem compreendido. Há dois anos, por exemplo, uma IA conseguiu um feito que até hoje sem explicação, ao ser capaz de identificar a etnia de pessoas por meio de imagens de raios X - uma façanha impossível até mesmo para especialistas. Como esses modelos de aprendizagem podem aprender a fazer algo para o qual não foram ensinados a fazer? Esses desconcertantes desdobramentos estão no cerne de trabalhos como o de Wanja Wiese. Mais do que imaginar uma máquina reivindicando seu direito à existência, significa saber como se dará a nossa coexistência com elas e de que forma mudarão a nossa consciência do mundo que nos cerca. Eu penso, logo existo? Para os pesquisadores alemães, inteligências artificiais nunca desenvolverão consciência devido ao que se chama estrutura causal. Enquanto nos computadores os dados são carregados primeiro da memória, depois na unidade central de processamento para, finalmente, serem armazenados na memória novamente, isso não ocorre na estrutura do cérebro humano, onde não há tal separação. Assim, o “eu penso, logo existo”, a famosa frase cunhada em 1637 pelo matemático francês René Descartes, jamais seria realidade para um conjunto casual de fios, placas e circuitos.