É provável que Golpe de Sorte em Paris seja a despedida do diretor (Divulgação) O americano Woody Allen, aos 88 anos, faz parte de um clube muito seleto de diretores da atualidade que justificam, apenas com a força de seu nome e a tradição de seu trabalho, a ida ao cinema. Nunca decepciona e mesmo quando não é genial, é melhor do que a maioria do que está nas telas. Em Golpe de Sorte em Paris, ele apresenta seu melhor trabalho em muitos anos, talvez desde Meia-Noite em Paris, em uma comédia dramática que, na filmografia de Allen, fica muito bem na mesma gavetinha de Match Point, embora superior. A história gira em torno de um dos temas favoritos do diretor: traição. Na primeira cena somos apresentados ao escritor falas-trão Alain, que esbarra em uma rua de Paris com uma antiga colega de escola, Fanny, por quem sempre foi apaixonado. É Alain que vai fazer as vezes de Allen na história, o papel do sujeito atrapalhado, com pensamento caótico e que verbaliza tudo o que pensa, sem questões de consciência para brecá-lo. Ao entrar na vida certinha e hipercontrolada de Fanny, Alain provoca um terremoto cujas proporções podem ser devastadoras. Fanny é casada com Jean, um sujeito sobre o qual pesam suspeitas de ligação com crimes pesados e que, apesar ou justamente por causa disso, frequenta a alta sociedade local, levando Fanny a tiracolo como uma esposa-troféu. Ela dá abertura para que Alain continue a se aproximar, apesar de não ter intenção de trocar a vida de riqueza pela que pode ser oferecida pelo escritor pobretão. A amizade evolui. De almoços de sanduíche em praças afastadas, passam para jantar na casa do rapaz e, claro, o inevitável acontece. O marido, que não tem qualquer escrúpulo e maníaco pelo controle, percebe os sinais e vai lidar com a situação à sua maneira. Tudo o que acontece como consequência desta situação é toda a graça da história. Destaco o trabalho da atriz francesa Lou de Laâge, belíssima e já muito conhecida na França, indicada duas vezes ao prêmio Cesar (o Oscar francês). Mas quem rouba a cena, para mim, é a personagem de sua mãe, uma fã de histórias de detetive e de George Simenon que com sua lógica apurada e pouco senso de autoproteção se torna uma ameaça aos planos do genro. Um personagem que poderia ser clichê mas que se revela divertidíssimo mesmo com a atuação contida da veterana Valérie Lemercier. Direção segura, ótimo roteiro e interpretações ótimas, daquelas que só se vê em filmes dele: cada personagem parece viver em seu próprio planeta! Chama a atenção também a mudança interessante e curiosa em alguns elementos tão clássicos nos filmes do diretor, como a trilha sonora, que deixa de lado os standards dos anos 30/40 e o erudito para dar lugar ao bom jazz de Herbie Hancock, Nat Adderley e outros contemporâneos do diretor. O idioma falado na tela, o francês, é outro diferencial, inédito na filmografia de Allen. É bem provável que Golpe de Sorte em Paris seja também a despedida do diretor, já que, aos 88 anos e enfrentando um processo de cancelamento que dificulta e praticamente inviabiliza o financiamento e a distribuição de seus filmes, Allen já declarou que não tem nem vontade nem paciência e muito menos energia para lutar contra isso. É uma pena que sua história artística, tão rica, tenha sido manchada por um escândalo tão grave quanto duvidoso, já que não há e nunca haverá como comprovar ou desmentir as acusações de sua ex-esposa, a atriz Mia Farrow, e de seu filho. Nunca saberemos se as acusações são ou não verdadeiras. E, dentro desta dúvida, assistir ou não ao filme não vai mudar o que você, caro leitor, pensa a respeito do diretor. Nos aspectos meramente artísticos, o filme é um desbunde. A fotografia do italiano Vittorio Storaro (ganhador do Oscar por O Último Imperador, de outro diretor polêmico, Bertolucci) e os figurinos são um destaque bem positivo. A direção de Allen é precisa como sempre. A câmera está sempre onde deveria estar, os diálogos são exatamente como deveriam ser, sem gordura, sem excessos. Se houver alguma crítica, talvez seja ao final um pouco abrupto. E, mesmo sendo repetitivo e em muitos momentos previsível, Allen consegue prender a atenção e gerar interesse e tensão até a conclusão. E como um Woody Allen mediano já é bem acima da média das produções infantilizadas de hoje em dia, o filme é quase obrigatório para quem curte o bom cinema, vindo de um diretor que não tem medo de se renovar e enfrentar o mundo que o odeia com criatividade, talento e maestria.