O espetáculo inédito retrata um drama pessoal vivido pela atriz e como ela deu a volta por cima (Lúcio Luna/Divulgação) Conhecida por estrelar musicais e comédias, Helga Nemetik está encarnando no palco um papel diferente e potente: o da sua vida. Idealizado e protagonizado por ela, com dramaturgia de Juliana Rosenthal e direção de Michelle Ferreira, o espetáculo inédito retrata um drama pessoal vivido pela atriz e como ela deu a volta por cima. Não Conta para Ninguém estreou em São Paulo, no Teatro do Sesi, e está sendo um sucesso. Com entrada gratuita, o monólogo mostra o talento e a versatilidade de Helga. Foi na pandemia que o espetáculo começou a se desenhar. Quando o mundo parou, ela pôde enfrentar seus traumas com a terapia. “Nunca contei a ninguém sobre o abuso sexual que sofri na primeira infância, uma fase em que descobertas e afetos são levados para o resto da vida. Quantas mulheres próximas passaram por situações como essa e você nunca imaginou?”, indaga Helga. O que te levou a escrever Não Conta para Ninguém? Eu acabei contratando uma dramaturga para escrever o texto, mas idealizei o projeto. E o que me levou a fazer foi a terapia. A partir do momento que eu comecei a fazer a terapia, comecei a descobrir tantos gatilhos, tantas coisas que aconteceram na minha vida pessoal e na minha vida profissional, que eram por causa de um abuso que eu sofri na infância. Eu estava conversando com o terapeuta, Ele disse: por que você não ressignifica isso? Você é artista, escreve uma música, escreve um roteiro de filme, faz uma peça. E aí eu pensei e falei: sim, vou fazer uma peça. Vou fazer meu primeiro solo de drama e vou ressignificar isso para ela. Assim, eu estarei me ajudando e ajudando outras pessoas que também passaram por isso. Tem sido catártico para você encenar a sua própria vida? Como ficou tudo depois do projeto em curso? Tem sido muito catártico, especial, difícil também. Não é fácil encenar a própria história, ainda mais se tratando de um tema tão cruel, mas está sendo muito importante, está sendo libertador, de fato. E a repercussão grande, com a crítica elogiando e o público comparecendo: qual o sentimento? Tem sido um sucesso, alta procura de ingressos, esgotados todas as sessões. Os ingressos, como são gratuitos, acabam em 15 minutos, quando o site do Sesi libera para as pessoas fazerem a reserva. Além do sucesso, tenho recebido muitos relatos de pessoas que assistem à peça e se sentem seguras para dizer que também passaram por isso. Então, sinto que estou, de fato, cumprindo a minha missão e uma função social que o teatro deve cumprir. Claro que o teatro é para entreter, é para emocionar, mas ele também deve cumprir uma função social e a gente está cumprindo com essa peça. Isso me deixa muito feliz. O sentimento é de dever cumprido, de orgulho, de realização, no sentido de que também um dos motivos para fazer esse solo era me colocar nesse lugar de drama que o mercado não me coloca. O mercado só me coloca para fazer o teatro musical ou a comédia. Então, mostrar para o mercado essa minha versatilidade com o meu trabalho de também ser uma atriz dramática é muito importante. Ver que eu posso realizar, porque isso é uma idealização, uma realização minha, uma produção minha, junto com amigos que me deram a mão, mas de fato entender que eu posso fazer por mim. Não preciso ficar esperando nenhum produtor ou nenhum diretor me convidar. Quando eu quero, eu posso, já sei que sou capaz. Então, isso também é muito importante para mim. Você compartilha bastante sua vida nas redes sociais, inclusive sua rotina de exercícios e alimentação. Como é também essa cobrança com o padrão de corpo, ainda mais para quem trabalha com a imagem? A cobrança da mídia com relação a estar sempre bonita, sempre magra, sempre foi um problema para mim, porque com a terapia também descobri que a minha compulsão alimentar vem do trauma do abuso. Então, problemas com o corpo, de você, às vezes, saber que precisa estar bem, precisa estar magra, precisa estar bonita para a mídia, para os trabalhos, e, ao mesmo tempo, sentir um desejo de não estar... Porque, inconscientemente, você não quer que te olhem, você não quer ser objeto de desejo sexual por conta do abuso que você sofreu. Então, inconscientemente, aí você come, come, come para engordar, para ficar indesejável. Então, na terapia, eu descobri que essa minha luta com a balança, essa compulsão alimentar, vem desse lugar, e aí é sempre uma guerra interna. Estar magra e estar bem para a mídia, para o meu trabalho, e, ao mesmo tempo, às vezes não querer ser vista como uma mulher bonita, sensual, desejável. É uma grande luta. Você tem feito bastante cinema, depois de uma fase de TV. Tanto que três filmes serão lançados: As Irmãs Fox, Advogado de Deus e também A Miss. Todos devem ser exibidos no segundo semestre? Está uma fase boa do cinema agora para mim. As Irmãs Fox foi um filme em inglês em que eu não falava inglês, com direção do Wagner de Assis. Foi uma experiência incrível. Eu nunca tinha feito um trabalho falando em outra língua, então foi muito legal. O Advogado de Deus, que foi o último filme que eu rodei, tem uma personagem que é completamente diferente e que nunca tinha feito, uma médium, algo completamente fora da minha realidade. Foi desafiador e muito bonito de fazer. E A Miss é o filme em que eu sou a protagonista e estou ansiosíssima para sair, que também está me colocando num lugar que não é o lugar da comédia. Ela é uma mãe muito dura, uma ex-miss que deposita todas as suas frustrações na sua filha e, obviamente, não quer ser miss, então ela é quase vilã e logo depois, com a reviravolta da história, ela se redime, tem cenas lindas de perdão. Foi especial estar nesse lugar de uma atriz mais madura e mais dramática. E quais são os planos para depois das estreias. Tem saudade de novela? Pretendo continuar fazendo o Não Conta para Ninguém, que é uma peça que vou fazer o resto da vida, com certeza. Consigo levá-la para o Rio de Janeiro, para a minha cidade, preciso fazer turnê com essa peça. Saudade das novelas sempre temos, porque é um período da vida que a gente fica ali mergulhada numa história, numa personagem. Faz um ciclo de amizades que é quase uma família, é gostoso. Sinto saudade, mas o que tem aparecido nesse momento são essas possibilidades no cinema, nas séries, audiovisual. E teatro, porque agora que aprendi a produzir, vou continuar me produzindo cada vez mais. Daqui a pouco vai ter um projeto novo que a gente está idealizando, correndo atrás de um patrocínio, já foi aprovado na lei, ainda não posso dizer qual é, mas se trata de um grande musical.