[[legacy_image_94612]] “O frio queima meu coração porque sei que pessoas estão nas ruas congelando. É uma inquietação muito grande que me move a sair nas madrugadas de Santos para tentar ajudar a minimizar esse sofrimento”. Assim como faz o mecânico e estudante direito Oscar de Lira, de 23 anos, quase 7 milhões de brasileiros, segundo o IBGE, exercitam, na prática, a empatia. São pessoas que arregaçam as mangas e doam parte de seu tempo para realizar alguma atividade voluntária. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Como em tantas outras esferas da vida, a pandemia de covid-19 trouxe vários desafios ao voluntariado. Algumas atividades tiveram de ser paralisadas para cumprir o isolamento social. Em outras áreas do trabalho social ocorreu o contrário: verdadeiras mobilizações foram montadas para intensificar as ações solidárias, ainda que com as devidas adaptações nas medidas sanitárias de prevenção. Onde não foram possíveis a presença física e o calor humano, a tecnologia tentou suprir carências e alcançar mais colaboradores. Entidades se reinventaram, organizações não governamentais se reestruturaram. No próximo dia 28, Dia Nacional do Voluntariado, o saldo social é positivo. Ainda não há dados ou pesquisas definitivas, mas a tendência é que os números relativos ao terceiro setor tenham crescido em no ano passado, em função dos reflexos da crise sanitária. Em 2019, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, a proporção de pessoas a partir de 14 anos de idade dedicadas ao trabalho voluntário era de 4%. A média de horas dedicadas a esse tipo de serviço cresceu de 6,5 horas para 6,6 horas semanais entre 2018 e 2019. Dos 6,9 milhões de brasileiros que realizaram trabalho voluntário no ano passado, 90,7% o fizeram por meio de empresas, organizações ou instituições. Além disso, 79,6% estavam ligados a alguma congregação religiosa, sindicato, condomínio, partido político, escola, hospital ou asilo. [[legacy_image_94613]] Oscar começou a fazer a diferença em 2019, com apenas 21 anos. Hoje é embaixador do Bem da Madrugada, entidade que há dois anos leva escuta ativa, serviços, alimentos, material de higiene, medicamentos e cobertores para a população em situação de rua. Segundo ele, desde que começou a pandemia, houve um aumento de 40% no número de pessoas atendidas. “Vemos agora famílias inteiras nesta situação. Pessoas perderam o emprego e foram para as ruas por falta total de opção”, conta. Felizmente, as equipes têm crescido a cada ação. A última edição, realizada na madrugada do dia 15, contou com 50 participantes. O trabalho é o mais completo possível. Envolve profissionais de higiene e estética, como cabeleireiros, barbeiros, manicure. Também atuam trabalhadores da saúde, como psicólogos para a escuta ativa, médicos, enfermeiros e até veterinários para atender os cachorros. “Quando necessário oferecemos até parte jurídica. Fazemos a ponte com Centro Pop, da Prefeitura, ou com Defensoria Pública para que essas pessoas resgatem documentos ou garantam o recambio (passagem de volta para a casa)”. A abordagem não é só para entregar alimento e a intenção é que um dia esse trabalho deixe de ser necessário. “Tentamos levar palavras de esperança e ajudá-los a se reerguerem. Essas pessoas não perderam só bens materiais, elas perderam a dignidade. Todos podemos e devemos fazer algo a respeito”.Entendendo que ainda é pequeno o contingente de jovens como Oscar envolvidos em ações solidárias, a advogada e professora da Escola Casa Branca, Ana Silva, passou a incentivar o engajamento de seus alunos em algum trabalho voluntário. Dessas conversas surgiram dois projetos que já são realidade. Um deles é o Projeto Músicos de Bremen, que conta a história de animais abandonados que encontraram a felicidade e ainda arrecada ração para cães e gatos resgatados das ruas. Em um outro projeto interdisciplinar o foco é a população em situação de rua. Os estudantes levam para a escola alguns gêneros alimentícios sugeridos pela entidade Ismênia de Jesus. Assim, colaboraram com a instituição, que há anos fornece refeições diárias para esse segmento da população. Mundo da fantasia Há quem se utilize da magia dos contos de fadas para fazer o bem. É o caso de um grupo de voluntárias chamado Princesas Caiçaras. Por meio do coletivo, adolescentes e jovens de várias idades percorrem casas de acolhimento, abrigos, hospitais e eventos geral, vestidas como princesas das histórias da Disney. A idealizadora Camila Gomes, de 33 anos, conta que tudo começou em 2012, quando ela tinha 25 anos. A historiadora e um grupo de amigas resolveram fazer um encontro inusitado depois que ela relatou nas redes sociais que tinha sonhado com uma grande festa. O detalhe mais importante: ela e as amigas eram princesas. O sonho literalmente virou realidade. A festa realmente aconteceu com o tema princesas e lá surgiu a ideia de transformar a brincadeira em algo útil. Depois foi só organizar a papelada e construir um calendário de ações. Logo veio o primeiro evento das Princesas Caiçaras, voltado a crianças em vulnerabilidade social. A estreia foi na Casa Vó Benedita, em Santos. Branca de Neve, Ariel, Cinderela, Bela, Elza, Fiona, Ana, Jasmine e várias outras personagens criaram juntas o “Cinema Solidário”. “Levamos as crianças dos abrigos para assistir lançamentos da Disney no cinema. Arrecadamos o valor dos ingressos e da pipoca e vamos caracterizadas. Com pandemia tivemos de dar uma pausa, mas já foram nove edições". Atualmente o projeto conta com 17 princesas. Quando a situação sanitária permitir, haverá novas adesões. Para Camila, é perfeitamente possível conciliar a vida pessoal, cuidar do aspecto profissional e ainda ajudar o próximo. “É tanta coisa boa que a gente ouve ao fazer as ações que só quem faz consegue entender a dimensão”. Ela conta que mesmo quando as voluntárias estão num dia muito ruim participar das atividades revigora a alma. “A gente fica esgotada fisicamente, claro. No outro dia parece que um caminhão passou por cima, mas é um caminhão de amor. É uma sensação de luz sentir que estamos fazendo a diferença. A vida fica muito melhor”. Experiência Aos 57 anos de idade e com 38 anos de experiência como voluntário do posto de Santos do Centro de Valorização à Vida (CVV), Renato Caetano de Jesus conserva o mesmo encantamento do início com o trabalho referência em prevenção ao suicídio. A relação com a instituição começou quando ele tinha apenas 19 anos. “Fui levado por uma antiga namorada, que era voluntária do posto de Santos. A namorada passou, mas o relacionamentocom o CVV permaneceu firme e forte”, brinca. Em quase 70% de seus anos de vida Renato esteve em plantões telefônicos semanais, totalmente disponível para conversar com pessoas de todas as faixas etárias, classes sociais, gênero ou religião. Do outro lado da linha estavam seres humanos com algum tipo de sofrimento ou angústia emocional. De acordo com CVV, ao desabafarem suas histórias, ao chorarem, rirem ou mesmo depois de um tempo de silêncio compartilhado, as pessoas tendem a sentir algum alívio. “Mesmo depois de todos estes anos, me encanto com o trabalho. A cada plantão situações novas se apresentam. Aqueles que ligam expressam sentimentos comuns, como raiva, indignação, solidão, tristeza etc, mas a trama que se apresenta na narrativa de cada pessoa transforma cada conversa em algo único. Por isso, dizemos que não existem frases feitas no atendimento do CVV”. O que existe é muito treinamento para garantir uma escuta ativa, com paciência, acolhimento, sem julgamentos ou receitas prontas, e, mais importante: que dê espaço para o outro falar. “No CVV o tempo é da pessoa, não do voluntário. É muito bom saber que de alguma forma posso ser útil a quem procura atenção. Aliás, com alguma frequência recebemos ligações de agradecimento por parte de pessoas que um dia precisaram do serviço e foram bem acolhidas”, avalia. Nos bastidores Ser voluntário nem sempre significa atuar diretamente com o público alvo de um determinado serviço. Os preparativos e os bastidores são extremamente importantes para que a solidariedade chegue na ponta. José Lorenzo Alvarez, de 74 anos, tem essa certeza há 20 anos, desde que resolveu atuar junto com a esposa na APAE de São Vicente. Além de ser responsável pela contabilidade, o aposentado faz de tudo um pouco na entidade. O trabalho fica mais intenso nos preparativos e na realização dos eventos beneficentes. São eles que ajudam a arrecadar fundos para a manutenção da escola que ajuda pessoas com deficiência a viverem com mais autonomia. “É bastante trabalho. Desde comprar gelo para as bebidas até o preparo de comida, decoração do salão, elaboração e venda de convites. Como diz o ditado popular, na Apae os voluntários vendem o almoço pra comprar janta”. Assim como as demais entidades, a instituição sofreu nessa pandemia por não poder fazer eventos ou participar de feiras solidárias. “Além disso, com a mudança de governo em São Vicente ficamos sem algumas verbas”, conta. Dificuldades à parte, o sentimento de arregaçar as mangas é sempre de muita satisfação. “Temos muitas barreira, mas a gente supera tudo. Ser voluntário é dar de si sem pensar em si. Precisamos de mais pessoas assim, interessadas em fazer o melhor e em continuar o que começamos. Afinal, o pique vai acabando com a idade. Queremos e precisamos passar o bastão para os mais jovens”. Para ajudar As entidades e projetos sociais sempre precisam de novas adesões. “Para ser um bom voluntário o mais importante é o comprometimento e a vontade de ajudar. Escolha uma área em que você se identifica e comece”, convida José Lorenzo. ApaeBem da MadrugadaCVVPrincesas Caiçaras