O filme ou livro dos sonhos de qualquer pessoa pode ganhar “continuações” que não são necessariamente assinadas pelos autores das obras, mas por quem foi impactado por elas. A criatividade e o estímulo à produção artística podem receber um novo impulso por conta das chamadas fanfics, que ganham mais espaço a cada dia que passa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O fenômeno das ficções de fãs, como diz a tradução livre, não é algo recente. A prática se difundiu nos anos 1960 e 1970, graças aos fãs de ficção científica, especialmente Star Trek (Jornada nas Estrelas) e Star Wars (Guerra nas Estrelas). Surgiram diversas fanzines (revistas de fã), onde eram criadas histórias alternativas com o mundo e personagens desses filmes. Porém, ainda no século 19, alguns fãs das clássicas histórias do detetive Sherlock Holmes davam seu tom aos casos resolvidos por ele, que só na década de 1930 os admiradores tornaram públicas. “Sobre o mercado de fanfic, é muito interessante pensar como uma prática que nasce de uma experiência muito lúdica se transformou de fato em um mercado pujante”, afirma o professor de Redação e História da Arte e sócio da editora Lítera Cultural, Victor Valente. Segundo ele, o público-alvo, tanto o produtor quanto o leitor de fanfic, é majoritariamente feminino e adolescente. “As mulheres são, hoje, o principal público-leitor do País. Elas leem mais, compram mais livros e isso se espelha também no caso das pessoas mais jovens”, complementa. Engajamento O professor acredita que um dos fatores que estimulam o mercado das fanfics é a capacidade de gerar engajamento de algumas obras ou temas. “Isso nasce dessa coisa meio adolescente, da paixão por aquilo com o que se engaja. Quando gosta, gosta muito, quer participar. Ela é imersa naquele universo literário e deseja reelaborar aquele mundo, seguir aquele mundo e até discordar do autor”, argumenta. Para Valente, esse tipo de postura conversa com uma noção contemporânea da história da arte, “É o leitor como um coparticipante da produção da obra. Um espectador como uma figura não passiva, mas também elaboradora”, emenda. LGBTQIAPN+ As fanfics ampliam a visibilidade LGBTQIAPN+, criando um espaço seguro e criativo para explorar identidades e relacionamentos pouco representados na mídia tradicional. Exemplos recentes mostram força do estilo A história das fanfics que chegaram às telonas tem exemplos bem curiosos. Um deles é o best seller Cinquenta Tons de Cinza, que abre uma trilogia escrita por E. L. James. Fã assumida da saga Crepúsculo, ela decidiu escrever uma história erótica usando Bella e Edward como protagonistas. Com o sucesso, reescreveu a obra como uma trama original, trocando os nomes dos personagens para Anastasia e Christian. After, fanfic de One Direction com Harry Styles como protagonista romântico, também se destacou. A série de livros populares gerou uma adaptação cinematográfica. “Autores de fanfics chegaram a escrever filmes para o streaming, como A Barraca do Beijo e Instrumentos Mortais, que virou série. Os autores de fanfic estão ganhando cada vez mais espaço, porque vêm se destacando no contexto on-line, e os grandes estúdios e editoras têm olhado para esse público engajado com um potencial interessante de retorno”, acredita o professor. Ele observa entre suas alunas um grande consumo de fanfics. “Adolescentes consomem demais. Nesse mesmo eixo, se engajam com uma série literária, querem seguir vendo coisas a respeito daquela obra. O espaço se abre para que possam consumir outras autores, às vezes jovens como elas”, sinaliza.