Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, mais de 1 bilhão de pessoas vive com a doença no mundo (Adobe Stock) Em meio aos avanços dos tratamentos antiobesidade, um grupo internacional, com cerca de 80 pesquisadores de 18 países, incluindo o Brasil, criou uma nova padronização para medir o gasto energético. Em artigo publicado na revista Nature Metabolism, os cientistas apresentam regras e unidades uniformizadas para análises de gasto energético em roedores, substituindo a prática de dividir as taxas metabólicas pelo peso corporal. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Inexistente hoje, a nova norma visa obter resultados replicáveis, comparáveis e mais consistentes. Com isso, pode-se criar um banco de dados padronizado, aberto a análise mais aprofundada, com inteligência artificial, por exemplo. A padronização abre possibilidades para testes pré-clínicos de novos fármacos contra a obesidade, e outras doenças metabólicas, com foco em gasto energético. “Doenças complexas e multifatoriais, como diabetes, aterosclerose e hipertensão normalmente são tratadas com, no mínimo, dois a três medicamentos. Quando existe essa associação, é possível reduzir as doses de cada um deles individualmente, aumentando a eficácia e a segurança para o paciente”, diz o médico Licio Augusto Velloso, diretor do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC), com sede na Universidade de Campinas (Unicamp) e um dos autores do artigo. “No caso da obesidade, mesmo com a revolução dos últimos anos nos tratamentos, os estudos mostram que os novos medicamentos só reduzem a fome, sem aumentar o gasto energético. A terapia ideal para a obesidade é que ocorram as duas coisas: o paciente sinta menos fome e gaste mais energia. O grande problema era padronizar os métodos para medir esse gasto energético”, explica. Padronização Os pesquisadores apresentam um conjunto de unidades uniformizadas para experimentos de calorimetria indireta – um exame que mede a quantidade de calorias que o organismo gasta. Professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e um dos brasileiros autores do artigo, José Donato Junior destaca que a falta de padronização cria um problema na literatura científica, chegando a casos de estudos com conclusões distintas por causa da forma de análise dos dados. “Cada pesquisador, e muito em decorrência da maneira como o equipamento fornece a informação, acabava apresentando o dado de uma forma diferente. A ideia dessa publicação foi juntar um consórcio internacional, com credibilidade científica, para propor novos padrões”, explica Donato Junior, que também faz parte do OCRC e coordena o Laboratório de Neuroendocrinologia e Metabolismo da USP. Com a publicação do artigo, os pesquisadores estão buscando as principais revistas científicas que trabalham com metabolismo para que adotem essas regras como padrão no momento de avaliar os artigos para publicação. Também pretendem disseminar as normas em congressos e eventos da área. Remédios Na última década, o tratamento da obesidade avançou com a chegada ao mercado de medicamentos análogos ao hormônio GLP-1, como a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, e a tizerpatida, do Mounjaro. Eles atuam no sistema nervoso central e digestivo, promovendo sensação de saciedade e reduzindo a fome. Porém, ainda há uma janela de oportunidade no desenvolvimento de fármacos que estimulem células do tecido adiposo a gastar energia para produzir calor, em um processo chamado termogênese, promovendo a perda de peso. Recentemente, outro artigo publicado também na Nature Metabolism apresentou um medicamento experimental que se mostrou capaz de prevenir o acúmulo de gordura mesmo com uma dieta rica em lipídios, além de tratar a obesidade e reverter disfunções metabólicas associadas. Números Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com a doença no mundo, que está ligada a cerca de 1,6 milhão de mortes prematuras anuais. No Brasil, estima-se que 31% da população seja obesa, sendo que entre 40% e 50% dos adultos não praticam atividade física na frequência e intensidade recomendadas.