A unidade da Avenida Ana Costa, que ao longo dos anos passou por ampliação e reforma, é de 1975 (Alexsander Ferraz/ AT) Há restaurantes que alimentam. E há os que também guardam histórias. O Beduíno, o árabe mais tradicional da região, pertence à segunda categoria. Na próxima terça, dia 24 de março, a casa completa 65 anos e celebra uma trajetória que se mistura à memória afetiva de Santos, no litoral de São Paulo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Logo na entrada do restaurante, a fotografia de Elias Bakhos, com seu traje árabe, parece observar o movimento do salão. Mesmo após sua morte, em 2024, o fundador é exaltado, lembrado por circular entre as mesas, atento aos clientes e oferecendo a hospitalidade que sempre foi sua marca. Durante seis décadas, o Beduíno foi comandado por Elias, um imigrante sírio que cresceu em Santos e transformou o ato de receber em filosofia de vida. Hoje, o legado segue nas mãos dos filhos Paulo, Vivian e Lilian Bakhos, que cresceram entre fogão, temperos e exemplo. “Meu pai dividia tudo com a gente: os aprendizados e principalmente a forma de receber”, lembra Paulo. E receber, para Elias, era natural. Uma passagem contada por Paulo resume bem esse espírito. “Um dia, um cliente chegou querendo comprar 50 esfihas. Era fim do expediente e só havia 24. Ele embrulhou todas e disse que eram aquelas que tinha, então não cobraria nada. O cliente insistiu em pagar, mas ele não aceitou. Esse homem virou amigo da família. Até hoje almoça aqui todos os dias.” É assim que se construiu a alma do Beduíno: com gestos que cativam, além de comida boa. Sonho de infância A história da família Bakhos começou muito antes da abertura do restaurante. Em 1947, vindos de Damasco, na Síria, chegaram a Santos em busca de novas oportunidades. Entre os irmãos estava Elias, um jovem apaixonado pela gastronomia. Ainda criança, ajudava trabalhando na pensão do tio entregando marmitas. Foi assim, entre receitas caseiras e o calor da cozinha, que nasceu o sonho de ter seu próprio restaurante. Com 21 anos, em 1961, realizou o sonho ao inaugurar o primeiro Beduíno, na Av. Pres. Wilson, 46. Não demorou para que os santistas se apaixonassem pelos aromas e sabores da culinária árabe. Depois vieram o Beduíno da Av. Floriano Peixoto (1972); a icônica sede da Av. Ana Costa (1975), que se tornaria ponto de encontro de gerações até hoje; a unidade da Av. Pres. Wilson, 177 (1979); e, por fim, as lojas dos shoppings, Miramar (1989) e Parque Balneário (2015), também em funcionamento. Paulo aprendeu com o pai, Elias (Alexsander Ferraz/ AT) Aprendeu com o pai Visionário, Elias também sabia perceber as mudanças no comportamento dos clientes. No início da década de 1990, quando viu que muitas pessoas tinham pouco tempo para almoçar, criou os pratos executivos árabes, permitindo que cada cliente montasse seu prato com diferentes opções do cardápio. A ideia fez sucesso imediato. Mesmo assim, continuou inovando e, no início dos anos 2000, criou o Festival Árabe, um passeio pelas receitas do Oriente Médio que se tornaria uma das marcas registradas da casa. Entre as receitas que atravessaram gerações, uma tem significado especial. Era comum que Seu Elias levasse pessoalmente à mesa dos clientes mais frequentes um prato simples e cheio de afeto: arroz com lentilha, vinagrete e muitas azeitonas pretas. Hoje, entrou definitivamente no cardápio como homenagem ao fundador e também por insistência dos clientes. O prato custa R\$ 57,90 e carrega algo que vai além do sabor: memória. Cardápio O menu segue generoso. Há os kebabs de linguiça de cordeiro (R\$ 48) e de falafel (R\$ 44), o clássico beirute de kafta com maionese de alho (R\$ 34,90) e, claro, as esfihas, sendo a de carne a mais vendida da casa. Durante a tradicional Semana da Esfiha, chegam a sair cerca de 1.500 unidades por dia. “Às sete da noite já não tem mais nada”, conta Paulo. Outro campeão de vendas é o quibe frito (R\$ 11,90), muito recheado e bem sequinho, daqueles que chegam à mesa ainda estalando de tão fresco. Eu tenho minhas preferências no cardápio e posso recomendar. A esfiha fechada de ricota (R\$ 9,90) é minha comida de conforto. Com massa macia e recheio generoso, com azeitonas, sempre me lembra a minha mãe, que era fã. Também gosto de ir ao Festival Árabe e me fartar nas pastas. Minha preferida é a mohamara, feita de pimentão com nozes e alho, perfeita para comer com pão sírio. O festival custa, de segunda à sexta, R\$ 94 e, aos sábados e domingos, R\$ 104 por pessoa. Antiga unidade da Avenida Floriano Peixoto, aberta em 1972 (Reprodução) Aliás, o pão sírio da casa tem história. Paulo Bakhos, atento aos detalhes, decidiu há alguns anos fazer um curso de panificação para aperfeiçoar a receita. “Eu achava que ele ficava menos macio muito rápido. Hoje, ele é bem fofinho”. O bufê do festival está em constante movimento. Novidades são testadas com frequência e, se aprovadas pelos clientes, passam a fazer parte do cardápio. Foi assim com o pastel de banana, um sucesso. A ideia foi de Vivian e logo ganhou fama. Sessenta e cinco anos depois, muita coisa mudou na Cidade. Restaurantes abriram, fecharam, reinventaram cardápios. O Beduíno, no entanto, continua ali, fiel às suas origens e à hospitalidade ensinada por Elias Bakhos. PROMOÇÃO Na terça, dia 24, para celebrar, o tradicional Festival Árabe estará R\$ 65 por pessoa nas unidades da Avenida Ana Costa, 466 e no Shopping Parque Balneário.