Além da tradicional de limão taiti, é possível encontrar receitas de Rabbit premiadas internacionalmente (Alexsander Ferraz/AT) Resultado da mistura simples de frutas, cachaça, açúcar e gelo, a caipirinha gera polêmica na hora da preparação até entre profissionais. Com ou sem bagaço de limão, a caipirinha é a bebida oficial do Brasil desde o decreto presidencial de 2003. O drinque tradicional foi ainda o coquetel da Copa do Mundo de 2014. A origem da bebida também pode estar atrelada ao litoral de São Paulo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para o barman Rabbit, que pretende escrever um livro sobre o tema, é provável que o litoral tenha tudo a ver com a origem da bebida. “Não acredito que tenha nascido no interior de São Paulo, e sim no litoral. Isso porque caipirinha era um termo pejorativo para chamar os moradores do interior, de onde vinha a cachaça. Acredito que o nome tenha nascido aqui”, afirma. De acordo com o barman Derivan de Souza, um dos nomes que entrou para a história da caipirinha, a bebida foi, durante a Copa, “nosso welcome drink (drinque de boas-vindas). O mesmo fenômeno que houve com a tequila e a marguerita na Copa do México”, diz o profissional, responsável por colocar a bebida, em 1994, na lista de coquetéis oficiais da IBA (International Bartenders Association) — uma conquista nada fácil. “Foram quase dez anos de trabalho, e foi preciso conquistar o voto de 48 países. Mas, com isso, a caipirinha entrou para o rol de coquetéis como o Dry Martini”, conta. Assim, a caipirinha ganhou uma receita oficial, que consta no guia mundial da IBA para os bartenders. Hoje, o drinque brasileiro figura entre os dez mais lembrados no mundo e, segundo reportagem da revista Newsweek, é moda nos Estados Unidos. “Não há estrangeiro que pise em solo brasileiro e que não queira provar o coquetel que tem a cara do Brasil. E quanto mais frutas tropicais, melhor”, diz Derivan. “É um dos poucos coquetéis que podemos consumir antes e durante uma refeição. Ela, inclusive, auxilia na digestão”, completa. “A receita oficial é com limão, mas, em um país com tamanha diversidade de frutas como o Brasil, agregar novos ingredientes é inevitável”, diz o bartender Rabbit, que prepara receitas de caipirinha — uma delas premiada em Bordeaux, na França. Para Rabbit, apesar de ter caído no gosto do estrangeiro, ainda há preconceito do brasileiro quanto à bebida. “Mesmo com muitas cachaças de qualidade, ainda há quem continue achando que é uma bebida de pobre, e isso tem de mudar. É preciso valorizar o que é nosso.” De Remédio a Ícone Cultural A brasilidade da caipirinha sempre foi exaltada. Na Semana de Arte Moderna, em 1922, o drinque foi adotado pelos intelectuais — entre eles Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral — como símbolo da cultura gastronômica nacional. Com o casal, a caipirinha seguiu na bagagem para Paris e, a partir daí, o Brasil tinha um drinque para chamar de seu. A origem da caipirinha, segundo pesquisas, provém de uso como remédio.“Era comum misturar cachaça, mel, alho e limão para curar doenças”, relata Derivan. Durante a gripe espanhola, esse remédio caseiro se espalhou. O limão utilizado era o galego ou o cravo, ambos cheios de sementes. “Uma praga prejudicou a plantação dessas culturas, que foram substituídas, na década de 1970, pelo Tahiti — um híbrido da lima-da-pérsia com o limão-cravo, que não tem sementes”, explica Rabbit. Porém, quando o alho e o mel saíram de cena e deram lugar ao gelo e ao açúcar, não se sabe ao certo.