Pelé abriu o placar com 3 minutos de jogo na Vila Belmiro. Era o primeiro sinal de que a partida em um sábado chuvoso se tornaria inesquecível (Antonio Lucio/Divulgação) Os números de Pelé nos gramados pelo mundo são tão impressionantes que os fãs dele têm motivos para recordar as façanhas do Rei do Futebol em todos os meses do calendário. No dia 21 de novembro de 1964, por exemplo, o Campeonato Paulista estava na 25ª rodada. Era a reta final e, numa tarde chuvosa de sábado, o Santos recebeu o Botafogo de Ribeirão Preto na Vila Belmiro. Seria mais um jogo normal, que o esquadrão santista deveria vencer, mas ninguém imaginava a quantidade de gols que veria naquela partida. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Muitos poderiam ter esquecido que, no primeiro turno, a equipe do Interior venceu em casa, por 2 a 0, mas não os craques santistas, que foram ironizados durante o duelo em Ribeirão Preto. Por esse motivo, o time do Santos esperou, com muita ansiedade, aquele reencontro. O fato é que teria sido melhor não provocar a fera. Os próprios amigos de Pelé garantem que ele e os companheiros entraram com uma garra incrível em campo, goleando o Botafogo por 11 a 0. Na Vila Belmiro, 9.437 torcedores tiveram o privilégio de ver mais um show do camisa 10 que mudou a história do futebol. O incentivo dos santistas deu muito certo, porque com apenas 16 minutos o Rei já tinha feito três gols. No total, ele marcaria oito vezes e estabeleceria um recorde mundial de gols anotados numa só partida. Pepe marcou um gol olímpico. Coutinho e Toninho Guerreiro completaram a goleada. Torcedores lembram detalhes Entre os presentes, estava o historiador do Centro de Memória do Santos, Guilherme Guarche. Ele recorda que foi para a Vila Belmiro com a mesma expectativa dos fanáticos amigos santistas: ver Pelé ficar na frente na briga com o centroavante Flávio Minuano, do Corinthians, pela artilharia do Campeonato Paulista. “A gente queria ver mesmo o Pelé ganhar a disputa contra o atacante do nosso arquirrival. A nossa preocupação era que o Rei superasse o atacante deles”. Pelé terminaria o ano, mais uma vez, como artilheiro do Paulistão, com 34 gols marcados O jornalista José Carlos Silvares, que trabalhou em A Tribuna por 27 anos, também foi testemunha daquele jogo histórico. Ele tinha 12 anos quando foi à partida, ao lado do pai, José Bento e do irmão Paulo Silvares, ex-secretário de Esportes de Santos. “Nós sempre íamos com o meu pai e ficávamos na primeira fila da arquibancada. Não dá para esquecer daquela partida. Quando o Pelé começou a marcar gols e chegou no quinto, os torcedores começaram a gritar: ‘de novo, de novo, de novo’”. Silvares tem uma outra lembrança do jogo. “Naquele tempo, o placar antigo era de madeira e o funcionário responsável tinha que colocar com as mãos os números dos gols marcados. Nós e os torcedores tivemos a impressão que o funcionário não teria tantos números para acompanhar o ritmo de gols dos atacantes. Na hora do nono gol, a torcida achou que o homem do placar não estava achando o número correto e começamos a gritar para ele colocar o número 6 ao contrário. Até hoje eu não sei se ele achou o número 9 ou se aceitou a sugestão da torcida”. Apesar de assistir a muitos jogos com o pai e o irmão naquela época, Silvares não lembra de outra goleada como aquela. “Foi o único jogo que vimos uma vitória do Santos com aquele placar”. Outras lembranças O cirurgião-dentista Celso Leite é sócio do Santos há 50 anos e tem uma vida inteira dedicada ao clube. Já foi conselheiro, integrante do Conselho Fiscal e diretor do clube. Naquela tarde de uma chuva fina e insistente, ele era um garoto de 12 anos, que foi com o pai, Celso, e a mãe, Mariju, ao jogo. “Lembro bem daquele dia. Pegamos o bonde na esquina da Rua Tolentino Filgueiras e descemos na esquina da Rua Carvalho de Mendonça. Seguimos a pé pela Rua Guararapes até a Vila Belmiro”. Leite guarda muitos detalhes. “Sentamos nas antigas sociais, chamados de sócio-cachorro, porque não havia cadeiras. E a minha mãe levava revistas famosas da época (Manchete e O Cruzeiro) para não ter que sentarmos no cimento, que era grosso e muito ruim de aguentar o jogo inteiro, ainda mais na chuva”. Nas lembranças de infância, Leite vai recordando os lances e a situações provocadas por aquela goleada. “O Pepe fez o gol olímpico na nossa frente. Foi um show. Um gol atrás do outro e a gente torcia para o Santos marcar o gol número 10 porque era o número da camisa do Pelé. Como criança, eu não sabia que o Rei estava batendo um recorde mundial. Eu estava me divertindo, pensando em mais uma vitória e nas famosas comemorações da Rua XV de Novembro, no Centro de Santos”. Como foi a contagem Primeiro tempo Pelé - 3, 8, 16, 38 e 40 minutos Pepe - 19 minutos Coutinho - 25 minutos Segundo tempo Pelé - 25, 27 e 28 minutos Toninho Guerreiro - 45 minutos (Reprodução) A goleada que virou livro Para quem quer conhecer mais detalhes do jogo Santos 11 x 0 Botafogo, foi lançado no final de 2023 o livro A Goleada, da Capella Editorial, com fotografias de Antonio Lucio e textos de Antero Greco e Roberto Salim. A jornalista e pesquisadora cinematográfica Silvia Herrera, filha do repórter-fotográfico Antonio Lucio, autor das fotos, foi a responsável pela localização das imagens. Ela transformou essa descoberta num projeto cultural que virou livro.