Habilidoso, Marcos sabia driblar em velocidade e chegava até a linha de fundo para a jogada de gol (Eduardo Silva e Várzea Santista/Facebook) O Jabaquara Atlético Clube completa hoje 110 anos de histórias no futebol lutando com a mesma garra de sempre. Sonhando com um futuro melhor, superando as dificuldades de um time guerreiro desde a sua fundação sem esquecer de reverenciar um passado de grandes jogos e de muitos ídolos. No aniversário do clube, A Tribuna vai relembrar a história de um dos grandes jogadores revelados pelo Jabuca: o ponta-direita Marcos Pereira Martins, ou simplesmente Marcos, que fez um enorme sucesso com a camisa 7 do Jabuca. Muita gente não sabe, mas a negociação do jovem atacante para o Corinthians em 1962 foi a maior do futebol brasileiro naquele ano, cerca de 20 milhões de cruzeiros. Quem o viu de perto nunca mais esqueceu daquele jogador, que despontou na várzea como um dos melhores da época de ouro desse esporte apaixonante. Habilidoso, sabia driblar em velocidade e chegava até a linha de fundo para a jogada de gol. Quando Marcos arrancava pela direita o centroavante Célio Taveira já se descolocava para a área com a certeza de mais um gol. Eram tempos de glória do clube que teve um ataque com Marcos, Saui, Célio Taveira, Melão e Alcides. Os espanhóis vibravam. Atualmente, Marcos tem 80 anos mas continua sendo um exímio contador de histórias quando se reúne com os amigos na Ponta da Praia. Num bate-papo animado, ele recordou a infância quando já jogava bola e começou a trabalhar na Relojoaria Hora Técnica, na Rua General Câmara, no centro de Santos. Marcos conciliava o trabalho com a atuação no futebol de várzea, pelo tradicional Vila Hayden, e depois no Jabaquarinha, que jogava no domingo à tarde nos antigos campos do Canal 5. Foi nessa época que o jogador Bugre, do Jabaquara, o viu em ação. “Ele me viu na várzea e insistiu para eu tentar a sorte no futebol. Daí comecei a treinar no campo do Americana”. Com bom humor, Marcos relembra a resistência inicial do dono da relojoaria para o liberar para os treinos, mas com o tempo tudo se acertou. O início do time rubro-amarelo foi de muito impacto. ˜No início, trabalhava e treinava. Quando comecei a me destacar no Jabaquara, o Santos mostrou interesse. Como nós jogávamos as partidas do Campeonato Paulista na Vila Belmiro, o técnico Lula me viu e pediu a minha contratação, mas não deu negócio”. QUASE FOI PARA A ITÁLIA O bom futebol apresentado no Jabaquara despertou o interesse da Inter de Milão pelo jovem atacante. Marcos recorda de detalhes. “Veio um empresário italiano para me contratar. Na época eles queriam me levar e levar o Célio Taveira. Fomos almoçar no antigo e famoso Restaurante Jangadeiro, na Ponta da Praia. Tinha certeza que iria para a Itália, mas a negociação não evoluiu. Aí surgiu o clube que iria mudar a história do jogador e fazer a maior oferta do futebol brasileiro de 1962 para o Jabuca. O Corinthians atravessou a transação e o próprio presidente Wadih Helu desceu a serra para negociar com Rubens Cid Perez, que comandava o Jabaquara. Depois de quatro horas de conversa, dirigentes dos dois clubes chegaram a um acordo, com o apoio do pai de Marcos, Osvaldo Pereira Martins, corintiano fanático. A ida para o clube do Parque São Jorge estava mesmo no destino do atleta, que era fã dos ídolos alvinegros como o camisa 7 Cláudio Christóvam de Pinho, o centroavante Baltazar, o Cabecinha de ouro, e o goleiro Gylmar dos Santos Neves. “Eu era moleque e via o Baltazar passando de Cadilac para buscar o Cláudio e o Gylmar, que iam treinar em São Paulo. No Corinthians, Marcos jogou 189 vezes, marcou 27 gols e jogou com dois dos maiores nomes do clube. Luizinho, o Pequeno polegar, e Roberto Rivellino. “Os dois jogaram demais. O Luizinho era experiente quando eu cheguei e me deu muitas dicas”. Já a história com Rivellino é ainda mais curiosa. “Ele despontou nos aspirantes e muita gente ia mais cedo para o estádio só para ver o Riva jogar. Nós, que íamos entrar em campo mais tarde, também ficávamos encantados com aquele garoto bom de bola. Com o passar do tempo, eu, Dino Sani e o Clóvis sugerimos que o Rivellino fosse integrado aos profissionais”. Do Corinthians foi para a seleção brasileira entre os anos de 1963 e 1965, quando chegou a formar o ataque com Gérson, o Canhotinha de Ouro, Pelé e Pepe.. Marcos também jogou no Bangu, Portuguesa de Desportos, Portuguesa Santista e Santos, onde estave no time campeão paulista de 1973. Ele foi para a Argentina e jogou pelo Newell’s Old Boys e depois fez sucesso pelo Huracán, onde foi dirigido pelo técnico campeão do mundo Cézar Luiz Menotti. GRATIDÃO PELO JABAQUARA “O Jabaquara é tudo na minha vida. Me abriu portas e eu fui crescendo no futebol”. Marcos guarda a passagem pelo clube com muito carinho. “Tive a sorte de jogar com grandes companheiros. O Liminha me ajudou muito. Me recebeu e me incentivou. Eu joguei com o Mairiporã, o goleiro Dudízio e também não esqueço do Vicente, irmão do grande ponta-esquerda Edu, do Santos. O Vicente era muito bom de bola. Jogava demais. O Melão era craque. Forte e fazia muitos gols. E o Célio Taveira foi um grande parceiro”. Nem mesmo o sucesso por Corinthians, Bangu, seleção brasileira ou futebol argentino faz Marcos esquecer dos amigos e parceiros que o ajudaram a brilhar com a camisa 7 do Leão, que já foi do Macuco, da Ponta da Praia, e hoje está na Caneleira.