Guilherme Teodoro vai competir nos Jogos Olímpicos de Paris (Reprodução/Instagram) O jovem Guilherme da Costa Teodoro, de 22 anos, está pronto para fazer história no esporte. Ele foi o primeiro atleta de tênis de mesa nascido na Baixada Santista convocado para defender o Brasil em uma Olimpíada. Guilherme vai para os Jogos Olímpicos de Paris ao lado do melhor jogador brasileiro de todos os tempos, Hugo Calderano, e Vitor Ishiy, seu parceiro de duplas, além de Leonardo Izuka, que segue como reserva. Guilherme é um jovem talentoso de Guarujá. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “Quando eu fiquei sabendo da convocação, deu um arrepio. Estava com a minha namorada, Giovanna, e ficamos emocionados. Na hora já liguei para os meus pais, Ideilde e Marcelo Teodoro, para contar a novidade. Ela começou a chorar muito, ficou soluçando porque a gente sabe todo sacrifício que foi. Financeiro, distância, de ter que jogar muitos torneios para pontuar. Foi bem difícil, mas tudo agora está valendo”, disse. Guilherme estava ansioso e tinha muita esperança de ser convocado. “Eu já vinha jogando bem, mas não tinha essa confirmação da convocação. Quando saiu, fiquei muito feliz. Não foi uma surpresa, porque já tinha em mente que isso podia acontecer, mas a gente só acredita quando acontece. Quando saiu o anúncio oficial, respirei e relaxei”, disse o atleta, que despontou cedo para a modalidade. Ele começou a brincar no salão do prédio onde morava em Guarujá. “Nem era tênis de mesa, era pingue-pongue mesmo. Só de brincadeira”. A diversão começou a ficar mais séria quando começou a treinar com o professor Márcio Bastos na escolinha do Vila Souza Atlético Clube. Pelo Vila, já disputava torneios regionais e, com 10 anos, chamou a atenção do técnico Guilherme Simões, que o convidou para treinar no Clube de Regatas Saldanha da Gama. “No Saldanha eu fiquei até 15 ou 16 anos, quando surgiu a chance de ir para a Europa. O convite para treinar na Alemanha veio do patrocinador, que me apoia até hoje, a Joola. O meu técnico, Guilherme Simões, e a Cláudia Ikeizumi, do marketing da empresa, conversaram e foram fundamentais para a transferência. O Guilherme Simões começou a fazer contatos com o clube alemão e me disse que era a melhor opção para a minha carreira”. Determinado e corajoso, ele aceitou o desafio. Imagine um adolescente ir para um país estranho sozinho. Guilherme foi e começou uma nova etapa na carreira, disputando competições internacionais e enfrentando atletas da elite mundial. Atualmente, ele defende o ASC Grunwettersbach, clube no qual é treinado por Jan Zibrat, da Eslovênia, e Benedicto Gonzalez, da Espanha. A rotina de um jogador de alto nível não é fácil. Ele treina em dois períodos. Das 9 às 11h30, e das 15 horas às 17h30. No total, cinco horas de mesa mais uma hora e meia de treino físico. A dedicação é total. “O nosso trabalho começou lá em 2016 e venho evoluindo bastante. Eu fico em torno de sete meses por ano na Alemanha. Quando voltava, ia para o Saldanha, e agora também treino em São Caetano, com o técnico Francisco Arado, o Paco, da seleção brasileira”. Na reta final de preparação, Guilherme embarcou para o Sul-Americano adulto, ocorrerá no Paraguai. No começo de julho, retornará à Alemanha, e uma semana antes dos Jogos irá a Paris, já para a aclimatação na Vila Olímpica. Agora é esperar pela realização deste sonho, que ele acalenta desde criança. “Aos 10 anos, disputei o meu primeiro campeonato nacional. Fui campeão brasileiro pré-mirim, jogando pelo Saldanha, e eu falei numa entrevista para a TV Tribuna que eu queria treinar bastante para chegar numa Olimpíada. Carreira Guilherme Teodoro da Costa vai disputar os jogos de duplas com Vitor Ishiy. Apesar de atuarem juntos há pouco tempo, desde fevereiro deste ano, eles já conseguiram grandes resultados. Guilherme e Vitor garantiram o lugar da equipe brasileira em Paris durante o Campeonato Pan-Americano, em Cuba. “Nós fomos campeões. Se não garantisse esse título, teríamos que disputar o Pré-Olímpico. As duplas têm um fator importante no campeonato por equipes”. Com os bons resultados, eles já estão em 16o lugar no ranking mundial. “A parceria não é muito longa, não é de muito tempo, a gente começou a jogar, realmente, no início deste ano, em Singapura, e desde aí começamos a jogar bem, percebemos que o nosso jogo encaixava e aí o técnico da seleção brasileira, Francisco Arado, o Paco, viu essa conexão”. Eles disputaram dois torneios internacionais e três etapas do Mundial. Numa chegamos na final e outra alcançamos a semi contra os melhores do mundo e isso prova o mérito que temos para jogar em duplas na Olimpíada. Guilherme reconhece o entrosamento com o parceiro Vitor. “Nós dois temos um estilo ofensivo, mas a gente se completa porque ele gosta bastante de jogar de direita (forehand) e eu gosto um pouco mais de esquerda (backhand). A dupla se completa nesses golpes. Uma coisa que a gente brinca bastante, geralmente, eu sempre consigo preparar o ponto para ele finalizar. Ou ele prepara com a direita e eu finalizo”. Guilherme destaca outro ponto na atuação da dupla. “A gente tem esse tempo de reação para não se afobar. Se a bola tiver ruim, eu coloco com qualidade, para ele finalizar, e vice-versa. Nós temos outra vantagem, segundo o nosso técnico, Paco: eu uso muito a minha “chiquita”. Chiquita é a recepção mais agressiva, que eu consigo fazer. Quando o adversário saca, eu já consigo ser bem ofensivo nessa primeira bola e eu já faço ponto direto, ou se pegarem o saque, o Vitor já fica preparado para fechar o ponto. Foi onde ganhamos muitos pontos contra jogadores de nível de muito alto e acredito que esse seja um dos nossos pontos fortes. A gente conversa e constrói uma tática para levar vantagem”. Israel Stroh O medalhista de prata no Rio de Janeiro, em 2016, Israel Stroh, que garantiu vaga para sua terceira Paralimpíada, acompanhou de perto a carreira de Guilherme Teodoro. Treinaram no Saldanha da Gama na mesma época e a evolução do talentoso atleta chamou atenção. “Eu fico muito orgulhoso. Me sinto um pouco tiozão perto dessa turma. Eu vi o começo dele com 10 anos e o que me chama atenção é que ele cresce nos momentos decisivos. Desde molequinho, quando ainda nem era favorito, a gente repara o comportamento dele. Venceu campeonatos brasileiros. Foi campeão latino-americano, classificou para as Olimpíadas da Juventude. Em todos os eventos fortes ele teve um sucesso bem grande. Agora com o Vitor Ishiy ele está formando uma dupla relevante com boas chances de ajudar o Brasil em Paris. Fico feliz por ter acompanhado a formação desses jovens e por ainda estar jogando, como profissional, até agora. Tenho uma torcida emocional por ter visto eles jogarem desde criança”. Hugo Calderano Guilherme Teodoro da Costa não esconde a admiração por Hugo Calderano, melhor mesatenista brasileiro de todos os tempos. “O Hugo, que hoje é um dos melhores do mundo, também foi cedo para a Alemanha. Eu me espelhava nele porque nessa época já era o melhor do Brasil e a gente pensava em seguir esse caminho. Não fui para o mesmo clube, não fui com as mesmas pessoas, mas sabia que era o melhor a seguir. Então eu fui com tudo, sem olhar para trás e rezando para dar tudo certo”. Guilherme ressalta a importância de Calderano para mudar o patamar do tênis de mesa do Brasil. “Ninguém na América Latina chegou ao top 5 ou 10 do mundo. Ele chegou ao top 3, alcançou inúmeras medalhas em etapas do Mundial, um favorito para conseguir uma tão sonhada medalha olímpica para o Brasil. A gente se espelha muito no Hugo e em tudo que ele realizou no esporte para o Brasil e toda a América”. Gratidão Faz oito anos que Guilherme Teodoro da Costa tomou a decisão corajosa de ir treinar na Alemanha para aprimorar a sua técnica, mas isso não o afastou das raízes do esporte, nem dos seus primeiros treinadores no tênis de mesa. “Meu primeiro treinador foi o Márcio Bastos, na escolinha do Vila Souza, de Guarujá. Já no Saldanha treinei com Guilherme Simões, Émerson Maeda, Ricardo Dantas e Isaac Zauli. Também fiz aulas particulares com o próprio Guilherme Simões, Pedro Ramos e Humberto Manhani Júnior. Tem uma galera de Santos que era o pessoal mais velho, que a gente sempre via como ídolo. Esse pessoal tem uma relevância incrivelmente grande, tudo foi possível graças a eles”. Guilherme Teodoro lembra de uma situação curiosa. “Nos últimos tempos eu treinei com o Isaac Zauli, mas quando eu era mais novo, o Isaac ainda treinava e jogava. Era um dos melhores do Brasil, e nessa época eu não ganhava dele. Hoje ele é o técnico de Santos e da seleção paralímpica do Brasil”. Antes dessa geração, outros mesatenistas da região se destacaram com a camisa do Brasil. Em 1983, Acássio Rito da Cunha e Aristides França Nascimento foram campeões dos Jogos Pan-Americamos, em Caracas, na Venezuela. A equipe ainda contava com Ricardo Inokuchi e os saudosos Cláudio Kano e Maurício Kobaiashi (técnico). O santista Nélson Lopes Rico era o chefe da delegação brasileira de tênis de mesa.