[[legacy_image_104064]] Combater mensagens falsas é dever de toda a sociedade e o jornalismo profissional tem se esforçado para criar meios para que as pessoas confirmem a veracidade das notícias compartilhadas. Essa é a opinião do jornalista Thiago Reis, de 39 anos, coordenador do Núcleo de Dados, Fact-Ckecking e Projetos Especiais do G1 SP e da Rede Globo. Na semana passada ele esteve no auditório do Grupo Tribuna para uma palestra sobre sua área de atuação. O evento marcou a retomada da Cátedra Giusfredo Santini, que consiste em uma parceria de troca de conhecimento, conteúdo e tecnologia entre o Grupo Tribuna e a Universidade Católica de Santos (UniSantos). Giusfredo Santini foi diretor-presidente de A Tribuna entre 1959 e 1990. Thiago Reis nasceu em Santos, onde ficou até a adolescência, quando foi morar em São Paulo para cursar faculdade. Ele tem 15 anos de experiência no jornalismo. Passou pela Folha de SP antes de ir para o portal G1. Qual o impacto, hoje, das fake news para o jornalismo profissional? O que mudou?Temos, hoje, um ambiente de desinformação muito grande, com muitas mensagens falsas circulando e se criou uma necessidade de ter pessoas nas redações checando essas mensagens. Muita gente se pergunta: há necessidade de ter um checador de fatos? Os jornalistas já não vão atrás do que é verdade? Claro que o jornalista vai, a gente tenta publicar tudo checado. Os grandes jornais têm uma política de erros, um projeto editorial focado em contar a verdade, o que é notícia. Mas o que existe hoje é gente criando conteúdo falso, gerando mensagens falsas, seja para ganhar dinheiro, afetar a democracia. E chegando o período eleitoral isso tem um peso maior, porque pode muda rum processo democrático com as fake news. Nós (do Grupo Globo) temos uma preocupação muito grande com isso, temos pessoas que estão se especializando em fazer essas checagens. Um jornalista vai atrás, esgota todos os recursos e cai dizer se aquilo é verdade ou não. Nós fazemos uma checagem se aquela mensagem está circulando muito (para merecer ser desmentida). Temos um termômetro para fazer a apuração. Muito do nosso trabalho é enxugar gelo, mas é importante. Barrar mensagens mentirosas não é só papel do jornalista, mas de toda a sociedade? É de cada cidadão. Verificar se aquela mensagem recebida é falsa, evitar passar para frente, se algum amigo ou familiar repassar, dar um toque, mandar um link de uma checagem feita. O Jornalismo profissional não vai conseguir evitar ou barrar as fake news, isso é impossível. O nosso papel é dizer o que é notícia e o que não é, o que é verdade e o que é falso. A gente tem as plataformas que precisam se atentar ao problema. Algumas delas já criaram a mecanismos para limitar essas mensagens. Quando surgiu essa necessidade de, além de contar a verdade, o jornalismo desmentir notícias falsas?Não tínhamos antes tantos meios de distribuição como temos hoje, como as redes sociais, é uma cosia muito nova, principalmente para as pessoas mais velhas, que têm mais dificuldades. Elas estavam acostumadas aos meios tradicionais, confiavam. Então, quando elas recebem hoje uma notícia de um parente, de um filho, tem dificuldade de identificar que o conteúdo é falso. Não tenho a solução para acabar com as fake news, não vão acabar. Sempre existiram, mas o volume de informação hoje é muito maior. Antes era por e-mail, mas o impacto era muito menor do que hoje você abrir o celular, super conectado, sendo bombardeado de informações e não sabendo o que é verdade ou não. Para a população, qual a sua orientação?As pessoas precisam ter consciência do que uma mensagem falsa pode causar num indivíduo. A gente já fez, inclusive, uma série de reportagens com vítimas das fake news e de como isso pode ser cruel. Quando começou a pandemia eu fiquei muito preocupado, porque sempre me preocupei muito com mensagens falsas de saúde. Você faz a pessoa interromper um tratamento de câncer achando que um chá milagroso vai curá-la, você pode matar a pessoa. Então, quando se permite que circule um monte de notícias falsas sobre a epidemia de covid-19, você está matando pessoas. E a população não tem essa consciência. Existe muita má-fé, mas algumas pessoas passam com boa intenção, recebem aquilo e acham que vão ajudar o parente, o amigo. É difícil pedir para todo mundo comprovar, as pessoas ficam eufóricas para reencaminhar, mas precisam entender a importância que elas têm, especialmente para um parente. A pessoa que recebe, acha que aquilo foi referendado por quem está passando. As pessoas precisam saber como podem propagar algo maléfico. Falta punição maior para quem dissemina notícias falsas? É um pouco complicado. Como você vai julgar quem está com a intenção quem não está? Acho que um dos caminhos é barrar o financiamento. Mexer com o dinheiro é importante, como a plataformas têm feito. A Justiça também tem se preocupado muito com isso. São os propagadores oficiais, não a sua tia ou sua prima, é a pessoa que ganha com a indústria das fake news. A questão da punição precisa ser melhor estudada, porque pode criar um problema em relação ao direito de expressão. Em relação ao papel das redes sociais, o que você pensa?Elas têm um papel muito importante e estão sendo pressionadas para pensar em processos para barrar a circulação de fake news. Mas temos uma preocupação grande com o processo eleitoral de 2022. Como essas plataformas vão atuar? A gente não sabe, já há conversas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com essas plataformas e as agências para com esse ambiente, mas ainda é uma incógnita. Acho que as fake news têm um papel importante nas eleições, impactam, é muito importante combatê-las. Em relação ao jornalismo de dados, qual a relevância dele hoje?Nada mais é do que o jornalismo tradicional, combinado com as novas tecnologias que surgiram para ajudar a gente a trabalhar com grandes demandas de informações e números. Não vejo como algo novo, é um jornalismo que se apropria das tecnologias para potencializar a contação de histórias. Quando há dados para referendar aquilo que você está mostrando, é impactante para quem está lendo. É diferente de pegar um personagem qualquer e contar a história, sem dar um panorama do que está ocorrendo. Mas o número, por si só, não diz nada. É preciso histórias contadas com auxílio dos números. Há uma melhora na coleta dos números (do poder público) por causa da transparência. Antes, muitos órgãos não se preocupavam com nada. Houve melhora e isso deve ser gradual.